São João Maria Vianney
1786-1859Frases de São João Maria Vianney
Biografia de São João Maria Vianney
As Primeiras Luzes de uma Santidade Predestinada
Jean-Marie-Baptiste Vianney nasceu ao bater da meia-noite de 8 de maio de 1786, na pequena aldeia de Dardilly, em uma França que via o ocaso do Antigo Regime. Filho de Matthieu Vianney e Marie Beluse, ele foi o quarto de seis filhos de uma família de camponeses onde a virtude parecia ser uma herança hereditária. Desde o berço, Jean-Marie foi um “filho da bênção”; aos dezoito meses, sob o olhar atento de sua mãe, já unia as pequenas mãos para balbuciar os nomes de Jesus e Maria. Sua infância foi marcada pela hospitalidade cristã: sua casa era conhecida como a “casa dos pobres”, onde mendigos e proscritos encontravam abrigo e alimento. Entre esses pobres, o jovem Jean-Marie conheceu a figura de São Bento José Labre, cujas virtudes o santo recordaria por toda a vida. Marie Beluse, sua maior guia espiritual, ensinou-lhe que um cristão não deve poder olhar para sua mãe sem chorar de gratidão e que a oração deve ser a primeira e última ação do dia. Aos três anos, ele já buscava a solidão para rezar e, ao ouvir o toque do Angelus, ajoelhava-se com uma gravidade que enternecia seus pais.
O Pequeno Pastor e a Fé sob a Tempestade Revolucionária
Aos sete anos, a Revolução Francesa trouxe o Terror para Lyon e Dardilly, fechando igrejas e procrevendo sacerdotes. Enquanto cuidava do gado no vale de Chante-Merle, Jean-Marie transformava a natureza em seu oratório. Ele esculpia pequenas imagens de santos em madeira ou argila e as colocava no oco das árvores, passando horas em oração profunda enquanto seus companheiros brincavam. Durante este tempo de perseguição, ele frequentava missas clandestinas em celeiros e fazendas isoladas, arriscando-se para ouvir a palavra de Deus. Aos treze anos, em 1799, fez sua Primeira Comunhão em segredo, atrás de janelas fechadas e protegidas por fardos de feno para que a polícia republicana não visse o brilho das velas. Esse momento de êxtase foi a semente de sua vocação; ele declarou aos pais: “Se eu fosse padre, quereria ganhar muitas almas para Deus”. No entanto, seu pai, Matthieu, inicialmente resistiu a esse desejo, alegando a necessidade de braços para a lavoura e a falta de recursos para os estudos.
A Forja do Desejo Sacerdotal e o Exílio nas Montanhas
Aos dezenove anos, Jean-Marie finalmente recebeu permissão para estudar sob a tutela do Abbé Balley em Écully. Contudo, sua mente, treinada pelo arado e não pelos livros, lutava penosamente com o latim. Desanimado por sua “má cabeça” e pela zombaria de colegas mais jovens, ele peregrinou a pé até o túmulo de São Francisco Régis em Louvesc, mendigando pão por todo o caminho para obter a graça da ciência necessária ao sacerdócio. Suas orações foram ouvidas, e as trevas intelectuais começaram a se dissipar. Sua jornada foi novamente interrompida em 1809 pela conscrição militar de Napoleão. Após adoecer e perder seu regimento em Roanne, Jean-Marie viu-se providencialmente guiado a um esconderijo nas montanhas de Forez. Sob o pseudônimo de “Jérôme Vincent”, viveu escondido em Noës, dormindo em um celeiro e ensinando catecismo aos filhos da viúva Claudine Fayot. Durante uma batida da gendarmaria, o santo permaneceu oculto sob o feno e foi ferido pela ponta do sabre de um soldado que revistava o local, mas não soltou um único suspiro para não trair seus protetores.
A Luta Crucial pelo Altar e o Vicariato em Écully
Após uma anistia em 1811, Jean-Marie retornou a Dardilly com o coração pesado pela morte de sua amada mãe. Retomando os estudos, enfrentou a humilhação máxima ao ser rejeitado pelo Grande Seminário de Lyon por sua “incapacidade aparente” e falta de luzes teológicas. Foi o Abbé Balley quem, diante do Vigário-Geral M. Courbon, garantiu a santidade do discípulo: “Ele sabe rezar o rosário e tem devoção à Virgem”. Convencido de que “a graça faria o resto”, Courbon o admitiu às ordens. Jean-Marie foi ordenado sacerdote em 13 de agosto de 1815, em Grenoble. Ele caminhou sozinho e a pé para sua ordenação, carregando sua alva em um pequeno pacote. Como vigário em Écully, começou uma vida de mortificação heróica que assustava até mesmo o seu mestre; juntos, Balley e Vianney viviam em uma “luta a outrance” de penitência, privando-se de qualquer conforto material para expiar os pecados do mundo.
O Pastor de Ars e a Transfiguração da Paróquia
Em fevereiro de 1818, ele foi designado para Ars, uma aldeia descrita como um lugar onde “não havia muito amor de Deus”. Ao chegar, ajoelhou-se na entrada da aldeia e profetizou que aquele lugar não seria capaz de conter as multidões que ali viriam um dia. O Santo Cura iniciou sua missão com jejuns que faziam tremer os que o cercavam: passava dias inteiros comendo apenas batatas mofadas ou “matefaims” feitos de farinha e água. Ele distribuía sua comida, seu leito e suas roupas aos pobres, chegando a dar até o bouillon de galinha que lhe fora prescrito na doença. No púlpito, suas palavras eram chamas de fogo contra as danças, os cabarés e a profanação do domingo; ele dizia que “o diabo rodeia um baile como uma parede rodeia um jardim”. Com paciência invencível e doçura inefável, transformou Ars em um oásis de cristandade onde, ao meio-dia, o som do Angelus parava todo o trabalho nos campos.
Conflitos Sobrenaturais: As Batalhas contra o “Grappin”
A fúria do inferno desencadeou-se contra o santo por trinta e cinco anos. Ruídos de cavalaria pesada, gritos em línguas desconhecidas e golpes de massue contra as portas eram ocorrências noturnas habituais. Jean-Marie apelidou o demônio de “Grappin” e percebia que a violência dos ataques era sempre proporcional à importância do “grande peixe” (pecador notório) que Deus lhe enviaria no dia seguinte. O demônio chegava a sacudir seu leito, a cantar na chaminé como um rossignol e até a jogar gravilha em seu rosto enquanto tentava descansar. Em 1856, o ódio de Satanás manifestou-se fisicamente ao incendiar o leito do santo, que comentou com humor santificado: “O Grappin não pôde pegar o pássaro, então queimou a gaiola”. Apesar do terror inicial que o fazia suar de agonia, ele aprendeu a rir das ruses do inimigo, confiando inteiramente na proteção da Rainha dos Anjos.
O Thaumaturgo, o Leitor de Corações e a Glória Eterna
Ars tornou-se o confessionário do mundo; o santo passava de 16 a 18 horas diárias ouvindo os segredos das almas, muitas vezes revelando pecados esquecidos e lendo o íntimo das consciências com uma intuição divina. Milagres tornaram-se cotidianos: o trigo multiplicou-se milagrosamente no celeiro da “Providence” (o orfanato que fundou) e o vinho brotou espontaneamente de barris vazios para alimentar as órfãs. Curas de cegos, paralíticos e surdos ocorriam diante de seus olhos, mas ele humildemente as atribuía à sua “querida pequena Santa”, Santa Filomena. Consumido pelo zelo e pela caridade, o “mártir do confessionário” entregou sua alma a Deus em 4 de agosto de 1859, em uma paz que irradiava de seu semblante transfigurado. Canonizado em 1925, ele foi proclamado o Padroeiro Universal dos Párocos, um testemunho eterno de que “o que o corpo perde, a alma ganha”.
Referências bibliográficas
- CONVERT, Hippolyte. Le saint Curé d’Ars et la Famille.
- D’ORFEUILLE, Hugues; BANCROFT, Alan. Catechism with thoughts from the Curé of Ars. London: St Pauls Pub, 2011.
- MONNIN, Alfred. Esprit du Curé d’Ars, M. Vianney, dans ses catéchismes, ses homélies et sa conversation. Paris: Ch. Douniol, 1864.
- MONNIN, Alfred. Le Curé d’Ars: Vie de M. Jean-Baptiste-Marie Vianney. Paris: Ch. Douniol et Cie, 12ª ed.
- CONVERT, Hippolyte. Ma retraite avec le saint curé d’Ars. Paris: Téqui, 1985.
- VIANNEY, St. Jean-Marie Baptiste. Sermons du vénérable serviteur de Dieu Jean-Baptiste-Marie Vianney. 1883.
- VIANNEY, St. Jean-Marie Baptiste. The Sermons of the Curé of Ars. Chicago: Henry Regnery Company, 1960.
- FOURREY, René. The Curé d’Ars: a pictorial biography. New York: Kenedy, 1959.
- TROCHU, Francis. Le Curé d’Ars: Saint Jean-Marie-Baptiste Vianney (1786-1859). Lyon: Emmanuel Vitte, 1925.