Esta frase circula amplamente nas redes sociais atribuída a São Tomás de Aquino — mas não é encontrada em nenhuma de suas obras com essa formulação. Trata-se de um axioma do direito canônico do século V, atribuído ao Papa Félix III ou ao Papa Inocêncio I, que chegou desfigurado à internet brasileira em 2016.
A verdadeira origem de "Não se opor ao erro é aprová-lo": dossiê completo de uma citação milenar
A célebre máxima "Não se opor ao erro é aprová-lo; não defender a verdade é negá-la", amplamente difundida no Brasil como frase de São Tomás de Aquino, não pertence ao Doutor Angélico. Trata-se de um axioma do direito canônico cuja tradição textual remonta ao século V, atribuído ao Papa Félix III (483–492) ou ao Papa Inocêncio I (401–417), que percorreu mais de mil e quinhentos anos de transmissão manuscrita antes de aportar, desfigurado, nos sites brasileiros de frases em 2016.
1. A encíclica Inimica Vis de Leão XIII (1892)
Contexto histórico
A encíclica Inimica Vis foi promulgada pelo Papa Leão XIII em 8 de dezembro de 1892, dirigida aos arcebispos e bispos da Itália. A Itália de 1892 vivia sob o impacto da unificação (1861–1870), que havia abolido os Estados Pontifícios. Leão XIII denunciava a influência maçônica sobre as leis anticlericais do governo italiano. É no parágrafo §7 — sobre os católicos pusilânimes que se omitem diante do avanço da maçonaria — que surge a citação de Félix III.
- Documento: Encíclica Inimica Vis — Leão XIII, 8 de dezembro de 1892
- Publicação original: Acta Sanctae Sedis, vol. XXV (1892–1893), pp. 274–277
- Disponível em: vatican.va (latim, inglês e italiano)
- Contexto: 4.ª encíclica de Leão XIII sobre a maçonaria, após Humanum Genus (1884)
A citação de Félix III — texto trilingue
«Error, cui non resistitur, approbatur; et veritas quae non defensatur, opprimitur… Non caret scrupulo societatis occultae, qui evidenti facinori desint obviare.»
«An error which is not resisted is approved; a truth which is not defended is suppressed… He who does not oppose an evident crime is open to the suspicion of secret complicity.»
«O erro ao qual não se resiste é aprovado; e a verdade que não é defendida é oprimida… Não está livre da suspeita de cumplicidade oculta aquele que deixa de se opor a um crime evidente.»
Papa Leão XIII, Inimica Vis §7, citando o Papa Félix III — Vatican.vaEsta é a fonte papal e oficial da frase. A encíclica atribui explicitamente o texto ao "decessoris Nostri Felicis III" — "Nosso Predecessor Félix III". Trata-se de uma fonte de autoridade incomparavelmente superior a qualquer site de frases.
2. A fonte original: o Papa Félix III e o Cisma Acaciano
Em 484, Félix III convocou um sínodo romano com 77 bispos na Basílica de Latrão que excomungou Acácio de Constantinopla — patriarca que havia contemporizado com a heresia. Inaugurou-se assim o Cisma Acaciano, que durou 35 anos — o primeiro grande cisma entre as Igrejas do Oriente e do Ocidente.
As Epistolae et Decreta de Félix III estão preservadas no volume 58 da Patrologia Latina de Migne (PL 58). O texto canônico atribuído a ele, na forma mais completa preservada, é:
«Error, cui non resistitur, approbatur; et veritas, quae minimè defensatur, opprimitur. Nec caret scrupulo societatis occultae, qui manifesto facinori desinit obviare.»
Atribuído ao Papa Félix III · Patrologia Latina, vol. 58 · Séc. VA citação exata, na forma condensada em que circula hoje, não aparece verbatim nas epístolas sobreviventes de Félix III tal como preservadas no PL 58. O que existe é uma formulação que entrou na tradição canônica como máxima jurídica e foi condensada ao longo dos séculos.
3. O Decreto de Graciano (c. 1140)
Por volta de 1140, o jurista Graciano incorporou a sentença ao seu Concordia discordantium canonum — o Decreto de Graciano — como Distinção 83, Cânone 3, com a rubrica: "Error cui non resistitur approbatur".
- Obra: Decretum Gratiani — Concordia discordantium canonum
- Autor: Graciano, jurista em Bolonha, c. 1140
- Localização da citação: Distinção 83, Cânone 3 ("Error")
- Edição crítica: Emil Friedberg, Corpus Iuris Canonici, Leipzig: Tauchnitz, 1879
- Inscrição: "Felix Papa" (Friedberg) ou "Innocentius Papa" (manuscritos mais antigos)
A atribuição varia conforme a recension manuscrita consultada: a edição crítica de Friedberg (1879) inscreve o cânone a Felix Papa; manuscritos mais antigos trazem a inscrição "Innocentius Papa", atribuindo o texto ao Papa Inocêncio I (401–417). Esta discrepância é um problema paleográfico reconhecido pelos especialistas.
«Error, cui non resistitur, approbatur: et veritas, cum minime defensatur, opprimitur; negligere, cum possis peruersos corrigere, nil aliud est, quam fouere.»
Versão expandida · Distinção 83, Cânone 3 · Decreto de Graciano«O erro ao qual não se resiste é aprovado; e a verdade, quando minimamente não é defendida, é oprimida. Negligenciar a correção dos perversos, quando se pode corrigi-los, nada mais é do que encorajá-los.»
4. Tomás de Estrasburgo e Ockham — dois oponentes, a mesma citação
«Idem patet auctoritate Innocentii Papae, dist. 83. qui ait, Error, cui non resistitur, approbatur: et veritas, cum minime defensatur, opprimitur; negligere, cum possis peruersos corrigere, nil aliud est, quam fouere.»
Tomás de Estrasburgo · Commentaria in IIII libros Sententiarum · Edição de Gênova, 1585A ironia histórica é notável: Tomás de Estrasburgo presidiu a condenação dos ensinamentos de Guilherme de Ockham em 1345 e 1348. No entanto, o próprio Ockham, em seu Dialogus (c. 1332–1347), invocou o mesmo princípio canônico de D.83 c.3 para argumentar que todo cristão tem obrigação de resistir à heresia — chegando à conclusão oposta de que até mesmo um papa pode tornar-se herege. Dois pensadores radicalmente opostos, a mesma citação.
5. A cadeia de transmissão — 1.500 anos em sete elos
- Século V — A fonte primitiva A sentença é atribuída ao Papa Félix III (483–492) no contexto do Cisma Acaciano, preservada no PL 58. Algumas recensions a atribuem ao Papa Inocêncio I (401–417). A origem precisa permanece incerta.
- c. 1140 — Graciano a preserva Incorporada ao Decretum Gratiani como Distinção 83, Cânone 3. Torna-se parte do Corpus Iuris Canonici e é estudada em todas as faculdades de direito canônico da Europa.
- c. 1337 — Tomás de Estrasburgo a cita Em seus Commentaria, cita o texto com a referência "auctoritate Innocentii Papae, dist. 83", confirmando a atribuição a Inocêncio nas cópias medievais do Decreto.
- c. 1332–1347 — Ockham a invoca No Dialogus, utiliza o princípio para argumentar que o silêncio diante da heresia equivale à aprovação — e que até um papa pode errar.
- 1892 — Leão XIII a consagra Na encíclica Inimica Vis (§7), atribui explicitamente a citação ao Papa Félix III e a usa contra os católicos que não enfrentam a maçonaria.
- 8 de janeiro de 2016 — A falsa atribuição nasce Primeira ocorrência rastreável da atribuição a São Tomás de Aquino em português, postada pelo usuário "Newton-Jayme" no site KDFrases.com — plataforma colaborativa sem verificação editorial.
- 2016–hoje — Disseminação viral A atribuição se espalha pelo Pensador.com, Gaudium Press, Facebook, Brainly e dezenas de sites religiosos — sem nenhuma fonte verificável em qualquer obra de Tomás de Aquino.
6. Por que a frase não pertence a São Tomás de Aquino
- A citação não aparece em nenhuma obra conhecida de Tomás de Aquino — não consta na Summa Theologiae, na Summa contra Gentiles, no De Veritate nem em qualquer outro texto do Corpus Thomisticum
- O site santotomas.com.br, que cataloga citações verificadas com referência específica a artigos e questões, não contém esta frase
- A atribuição é estilisticamente inconsistente: Tomás escrevia no formato escolástico de quaestio; a frase é uma máxima papal característica de correspondência pontifícia
- A encíclica papal Inimica Vis, disponível no site oficial do Vaticano, atribui a citação expressamente ao Papa Félix III — fonte de autoridade incomparavelmente superior
- A primeira ocorrência rastreável da falsa atribuição data de 8 de janeiro de 2016 num site colaborativo sem verificação editorial
Por que a confusão provavelmente aconteceu
A hipótese mais provável combina vários fatores. O primeiro é a confusão entre "Tomás de Estrasburgo" e "São Tomás de Aquino": ambos são teólogos medievais chamados "Tomás/Thomas" que escreveram comentários aos Livros das Sentenças de Pedro Lombardo. A passagem de Tomás de Estrasburgo que cita D.83 c.3 pode ter sido encontrada por alguém que confundiu os dois autores.
O segundo fator é o efeito de reconhecimento de nome: São Tomás de Aquino é o intelectual católico medieval mais conhecido na cultura brasileira. Qualquer citação medieval associada a um "Tomás" tende a ser gravitacionalmente atraída para o nome mais famoso.
O paradoxo é que a própria frase, que adverte contra a negligência diante do erro, tornou-se ela mesma objeto de um erro negligenciado. Quanto mais poderosa a frase, mais poderoso o autor a quem é atribuída.
O terceiro fator é o contexto político brasileiro a partir de 2016: a citação — com seu apelo a enfrentar o erro e defender a verdade — era altamente compartilhável e politicamente instrumentalizável, o que acelerou imensamente sua disseminação.
Conclusão: o que este dossiê revela sobre a vida das citações
Esta investigação demonstra que a máxima "Error, cui non resistitur, approbatur" possui uma biografia própria que transcende qualquer autor individual. Nascida provavelmente no ambiente das disputas cristológicas do século V, foi absorvida pelo direito canônico através de Graciano, instrumentalizada por escolásticos tão opostos quanto Tomás de Estrasburgo e Ockham, elevada a pronunciamento papal por Leão XIII e, finalmente, desvirtuada pela internet brasileira ao ser colada no nome mais célebre que lhe coube na vizinhança.
A pesquisa confirmou que a primeira ocorrência verificável da falsa atribuição data de 8 de janeiro de 2016, no KDFrases. Dez anos depois, a citação aparece em agências católicas, sites educacionais e redes sociais como se fosse patrimônio intelectual do Aquinate. A correção desse equívoco não é pedantismo filológico — é exercício do princípio que a própria frase enuncia.
"Não se opor ao erro é aprová-lo" — uma frase milenar, papal e canônica, que a internet brasileira emprestou ao errado santo em 2016.Conclusão do dossiê · All Saints Pictures
- Leão XIII. Encíclica Inimica Vis, 8 dez. 1892, §7. Acta Sanctae Sedis, vol. XXV, pp. 274–277. Disponível em vatican.va.
- Graciano. Decretum Gratiani, Distinção 83, Cânone 3 ("Error"), c. 1140. Ed. crítica: Emil Friedberg, Corpus Iuris Canonici, vol. 1, Leipzig: Tauchnitz, 1879.
- Félix III. Epistolae et Decreta. In: Patrologia Latina, vol. 58. Ed. J.-P. Migne, Paris, 1862.
- Tomás de Estrasburgo, OSA. Commentaria in IIII libros Sententiarum, c. 1337. Ed. Gênova: Girolamo Bartoli, 1585. Disponível no Google Books.
- Guilherme de Ockham. Dialogus, Parte 1, Livro 4, caps. 25–29, c. 1332–1347. Ed. crítica: British Academy (ABMA 35), Oxford: OUP, 2020.
- KDFrases.com — primeira ocorrência verificável, usuário "Newton-Jayme", 8 jan. 2016.
- Pensador.com — lista a citação com nota: "Citação atribuída, autoria não confirmada".
- Gaudium Press — "Coletânea de frases de São Tomás de Aquino", 28 jan. 2022, sem referência a obra específica.
- Corpus Corporum — Universidade de Zurique (mlat.uzh.ch) — Patrologia Latina completa
- Internet Archive — Corpus Iuris Canonici de Friedberg
- Corpus Thomisticum — isidore.co/aquinas — escritos completos de São Tomás de Aquino