20 de setembro de 2026
Santos André Kim Tae-gon, primeiro sacerdote coreano, Paulo Chong Ha-sang, catequista e líder leigo, e seus companheiros foram os principais representantes dos 103 mártires coreanos canonizados pela Igreja. A fé cristã havia chegado à Coreia inicialmente por meio de leigos que conheceram os ensinamentos cristãos na China e os levaram para sua pátria. Durante as perseguições dos séculos XVIII e XIX, homens, mulheres, sacerdotes, catequistas, jovens e idosos entregaram a vida por Cristo. André e Paulo destacam-se entre eles como exemplos de sacerdócio, apostolado leigo e fidelidade até o martírio.
A história dos mártires coreanos possui uma característica extraordinária: a fé católica começou a se espalhar na Coreia principalmente por iniciativa de leigos.
No final do século XVIII, estudiosos coreanos tiveram contato, na China, com livros cristãos escritos ou traduzidos para o chinês. Entre esses escritos estava a obra A Verdadeira Doutrina de Deus, do jesuíta Matteo Ricci. Impressionados pela mensagem cristã, alguns desses estudiosos começaram a estudar a fé e a transmiti-la ao retornar à Coreia.
Em 1784, Yi Seung-hun recebeu o batismo em Pequim com o nome de Pedro e voltou para sua terra natal. A partir daí, pequenas comunidades cristãs começaram a surgir. Durante os primeiros anos, os próprios leigos ensinavam a doutrina, rezavam juntos e administravam o Batismo.
Quando o sacerdote chinês Chu Mun-mo chegou à Coreia em 1794, encontrou uma comunidade cristã já numerosa. A Igreja nascente, porém, logo enfrentaria uma oposição violenta das autoridades.
O cristianismo era visto como uma ameaça à ordem religiosa e social estabelecida. A recusa dos cristãos em participar de determinados ritos tradicionais, juntamente com sua fidelidade exclusiva a Deus, provocou perseguições cada vez mais severas.
Em 1801, iniciou-se uma grande perseguição. Muitos cristãos foram presos e mortos, e o único sacerdote que então servia secretamente à comunidade também foi executado.
Apesar disso, a Igreja coreana não desapareceu. Pelo contrário, cresceu através do testemunho daqueles que haviam recebido a fé e estavam dispostos a transmiti-la às novas gerações.
André Kim Tae-gon nasceu em 1821, em uma família profundamente cristã. Seu pai, Santo Inácio Kim, pertencia a uma família nobre e havia transformado sua própria casa em lugar de oração e encontro para os cristãos.
A perseguição atingiu profundamente sua família. Seu pai foi martirizado por causa da fé, deixando no jovem André o exemplo de um cristão que havia preferido a morte à renúncia de Cristo.
Aos quinze anos, André recebeu o Batismo e adotou o nome cristão de André. Pouco depois, foi escolhido pela comunidade para seguir o caminho do sacerdócio.
Para isso, empreendeu uma longa e perigosa viagem até Macau, onde estudou para tornar-se sacerdote. A viagem era extremamente difícil: atravessou regiões sob controle estrangeiro e enfrentou grandes perigos para receber a formação necessária.
Depois de anos de preparação, foi ordenado sacerdote em Xangai, em 1845, pelo bispo francês Jean-Joseph Ferréol. Tornou-se assim o primeiro sacerdote coreano nativo.
Ao retornar à Coreia, passou a exercer seu ministério secretamente. Conhecendo profundamente a língua, os costumes e a realidade de seu povo, tornou-se um instrumento precioso para a evangelização.
Além de celebrar os sacramentos, ajudava outros missionários a entrar clandestinamente no país e procurava manter comunicação entre a Igreja coreana e os missionários estrangeiros.
Em 1846, enquanto tentava organizar meios seguros para a entrada de missionários e transmitir informações às autoridades eclesiásticas, André foi descoberto e preso.
Durante o interrogatório, as autoridades procuraram fazê-lo renunciar à fé. Ele permaneceu firme.
Condenado à morte, foi torturado e decapitado em 16 de setembro de 1846, perto de Seul. Tinha apenas 25 anos.
Antes de morrer, dirigiu palavras de encorajamento aos cristãos e afirmou sua confiança na vida eterna. Seu martírio tornou-se um dos mais luminosos testemunhos da primeira geração de sacerdotes coreanos.
Paulo Chong Ha-sang nasceu por volta de 1795. Era filho de Santo Agostinho Chong Yak-jong, um dos primeiros líderes leigos da Igreja coreana, que havia sido martirizado durante a perseguição de 1801.
Ainda criança, Paulo experimentou diretamente o sofrimento causado pela perseguição. Seu pai foi morto e sua família perdeu grande parte de seus bens. Apesar disso, Paulo não abandonou a fé recebida.
Ao crescer, tornou-se um dos principais líderes da comunidade católica coreana. Sua vida foi marcada por uma determinação extraordinária em conseguir sacerdotes e missionários para uma Igreja que durante muitos anos havia sobrevivido praticamente sem ministros ordenados.
Paulo realizou repetidas viagens até Pequim, enfrentando longas distâncias e perigos para entrar em contato com os cristãos chineses e pedir ajuda para a Igreja de sua pátria.
Chegou inclusive a escrever ao Papa pedindo que a Santa Sé providenciasse uma estrutura eclesiástica própria para os católicos coreanos. Seu esforço contribuiu para que, em 1831, o Papa Gregório XVI estabelecesse o Vicariato Apostólico da Coreia.
Quando os missionários das Missões Estrangeiras de Paris finalmente conseguiram entrar no país, Paulo tornou-se um de seus principais colaboradores.
O bispo Laurent-Joseph-Marius Imbert reconheceu suas qualidades e chegou a prepará-lo para o sacerdócio. Entretanto, Paulo não chegou a receber a ordenação.
Em 1839, durante uma nova perseguição, Paulo foi preso. Diante das autoridades, apresentou uma defesa escrita da fé cristã. O juiz reconheceu a força de seus argumentos, mas declarou que a religião cristã havia sido proibida pelo rei e que Paulo deveria abandoná-la.
Sua resposta permaneceu firme: ele havia declarado ser cristão e permaneceria cristão até a morte.
Paulo Chong Ha-sang foi martirizado em 22 de setembro de 1839. Seu testemunho tornou-se símbolo da força do apostolado dos leigos na Igreja nascente da Coreia.
André e Paulo representam apenas dois entre os muitos cristãos que deram a vida durante as perseguições coreanas.
Os 103 mártires canonizados em 1984 pertenciam a diferentes condições sociais. Havia sacerdotes e bispos estrangeiros, catequistas, nobres, camponeses, homens e mulheres, pessoas casadas e solteiras, jovens, idosos e até crianças.
Entre eles estavam Santa Columba Kim Hyo-im e sua irmã Santa Inês Kim Hyo-ju, além de Santo Agostinho Yu Chin-gil, Santo Carlos Cho Shin-chol e numerosos outros cristãos que permaneceram fiéis até a morte.
As perseguições mais intensas ocorreram especialmente em 1839, 1846 e 1866–1867. Muitos foram decapitados, enforcados ou mortos de outras maneiras.
A maioria dos mártires era composta por leigos. Esse aspecto é particularmente significativo porque demonstra que a fé havia criado raízes profundas no povo coreano antes mesmo da presença regular de sacerdotes.
Eles não morreram apenas como indivíduos isolados, mas como membros de uma comunidade que já havia aprendido a rezar, evangelizar e transmitir a fé mesmo em condições extremamente difíceis.
O sangue desses mártires tornou-se, na linguagem da Igreja, a semente de uma comunidade cristã que continuaria crescendo.
A Igreja reconheceu oficialmente a santidade dos mártires coreanos em etapas. Alguns foram beatificados em 1925 e outros em 1968. Finalmente, em 6 de maio de 1984, durante sua visita à Coreia, o Papa São João Paulo II canonizou André Kim Tae-gon, Paulo Chong Ha-sang e seus 101 companheiros.
Foi a primeira canonização realizada fora de Roma na história moderna da Igreja.
A celebração colocou diante do mundo o testemunho de uma Igreja que havia nascido de maneira singular: sem uma estrutura missionária inicial permanente, através da busca da verdade por leigos que encontraram a fé cristã e decidiram transmiti-la ao próprio povo.
Santo André representa o primeiro sacerdote nativo, que voltou à sua pátria para servir uma comunidade perseguida e entregou a vida por seu ministério.
São Paulo representa a força do apostolado leigo, de um homem que atravessou repetidamente enormes distâncias para conseguir pastores para sua Igreja e que permaneceu fiel até a morte.
Junto deles, os demais mártires coreanos testemunham que a santidade não pertence a uma determinada classe social, idade ou condição. A Igreja coreana cresceu através de homens e mulheres que, cada um à sua maneira, compreenderam a dignidade de serem cristãos e preferiram permanecer fiéis a Cristo.
Hoje, os mártires coreanos são venerados como patronos e grandes testemunhas da Igreja na Coreia. Sua memória recorda que a fé recebida deve ser vivida concretamente e transmitida mesmo quando as circunstâncias parecem desfavoráveis.
O testemunho de Santo André Kim Tae-gon, São Paulo Chong Ha-sang e seus companheiros permanece assim como uma das páginas mais luminosas da história missionária da Igreja: uma Igreja nascida da busca de alguns leigos, fortalecida pelo testemunho dos mártires e fecundada pelo sangue daqueles que deram tudo por Cristo.
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