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20 de outubro de 2026

Santa Maria Bertilla Boscardin
20 de outubro

Santa Maria Bertilla Boscardin

1888–1922

Santa Maria Bertilla Boscardin foi uma religiosa italiana das Irmãs Mestras de Santa Doroteia, Filhas dos Sagrados Corações, que encontrou no cuidado dos enfermos o caminho de sua santificação. De origem camponesa e com poucos estudos, tornou-se uma enfermeira dedicada, especialmente próxima das crianças e dos pacientes mais vulneráveis. Entre o trabalho hospitalar, as dificuldades da Primeira Guerra Mundial e o sofrimento de sua própria doença, viveu uma fé sustentada pela oração, pela humildade e pela caridade.

Santa Maria Bertilla Boscardin nasceu em 6 de outubro de 1888, em Brendola, na província de Vicenza, no norte da Itália. Recebeu no batismo o nome de Anna Francesca Boscardin. Era filha de Angelo Boscardin e Maria Teresa Benetti, pertencentes a uma família de agricultores que dependia do trabalho diário para viver.

Sua infância transcorreu entre as tarefas domésticas, as necessidades da família e a vida religiosa da comunidade. Frequentou a escola elementar, mas sua formação escolar ficou limitada aos primeiros anos. Como acontecia com muitas meninas do ambiente rural de seu tempo, precisou assumir responsabilidades de trabalho ainda pequena.

O lar também conhecia tensões. As dificuldades econômicas e o comportamento do pai, marcado por excessos na bebida e por ciúmes, tornavam a convivência dolorosa. A experiência familiar de Anna Francesca não foi, portanto, uma sucessão de acontecimentos tranquilos. Desde cedo, ela conheceu inseguranças e sofrimentos que encontraria, de outras formas, na vida das pessoas que mais tarde assistiria.

Sua mãe teve participação importante na transmissão da fé. A oração, a vida paroquial e os ensinamentos cristãos ofereceram à menina uma orientação firme em meio às dificuldades. Anna Francesca encontrou particular alimento espiritual no catecismo que recebeu do pároco. Conservava esse pequeno livro com carinho, voltava às suas páginas e procurava compreender como colocar seus ensinamentos em prática.

Sua religiosidade se desenvolveu nesse ambiente simples, sem uma formação intelectual extensa. Aprendeu a relacionar o amor a Deus com o cumprimento dos deveres, a atenção aos outros e o cuidado com as próprias atitudes. O catecismo permaneceu uma referência em sua vida, ajudando-a a formar a consciência e a sustentar sua confiança em Deus.

Essa base cristã acompanhou o amadurecimento de sua vocação. Aos poucos, cresceu nela o desejo de consagrar a vida ao Senhor e de servi-lo em uma comunidade religiosa.

 

A entrada nas Doroteias e os primeiros anos de serviço

 

Em 1905, aos dezesseis anos, Anna Francesca ingressou no Instituto das Irmãs Mestras de Santa Doroteia, Filhas dos Sagrados Corações, em Vicenza. A congregação, fundada por São João Antônio Farina, unia a formação cristã ao serviço educativo e assistencial.

Na vida religiosa, recebeu o nome de Maria Bertilla. Sua entrada no instituto abriu um período de aprendizagem que envolvia oração, convivência comunitária, obediência e trabalho. Não chegou ao convento com títulos acadêmicos ou experiência profissional especializada. Trazia a disposição para aprender e a familiaridade com os serviços domésticos adquirida em casa.

Em 1906, foi enviada ao hospital de Treviso durante sua formação. Ali, seus primeiros trabalhos estavam ligados à cozinha e às necessidades materiais da comunidade. Depois da profissão religiosa, em 1907, voltou a ser destinada ao mesmo hospital.

Essas tarefas constituíram uma parte importante de sua preparação. A alimentação, a limpeza e a organização dos serviços eram necessárias ao funcionamento de uma instituição que acolhia pessoas fragilizadas. Maria Bertilla procurava cumprir o que lhe era confiado, mesmo quando seu trabalho permanecia pouco visível.

A vida comunitária também lhe trouxe dificuldades de adaptação e incompreensões. Sua simplicidade nem sempre era percebida como uma qualidade, e suas capacidades foram reconhecidas gradualmente. Ela precisava aprender a lidar com as próprias inseguranças e com os julgamentos de quem a cercava.

Sua trajetória mostra um amadurecimento paciente. A jovem que inicialmente parecia adequada apenas aos serviços mais modestos desenvolveria aptidões importantes para a enfermagem. O hospital se tornou o lugar onde sua sensibilidade, sua capacidade de observação e sua perseverança encontraram uma aplicação concreta.

Ao aceitar a formação e as exigências do trabalho, Maria Bertilla foi descobrindo a missão que ocuparia a maior parte de sua breve vida: permanecer próxima das pessoas enfermas, oferecendo-lhes assistência competente e presença humana.

 

A enfermeira das crianças e dos doentes mais frágeis

 

Em 1908, Maria Bertilla começou a trabalhar diretamente nas enfermarias. O cuidado das crianças com difteria marcou especialmente esse início. Tratava-se de uma doença grave, que podia comprometer a respiração e exigia vigilância constante.

Nesse serviço, a religiosa revelou qualidades que surpreenderam aqueles que a conheciam apenas pelas tarefas da cozinha. Aprendeu a manter a calma diante de situações difíceis, a acompanhar os procedimentos médicos e a observar as necessidades dos pequenos pacientes.

As crianças hospitalizadas enfrentavam, além da doença, o medo dos tratamentos e a separação de seu ambiente familiar. A presença de uma enfermeira atenta podia ajudá-las a suportar experiências que ainda não conseguiam compreender. Maria Bertilla procurava oferecer essa segurança por meio da paciência e da delicadeza no trato.

Sua dedicação também envolveu estudo. Em 1910, obteve o diploma de enfermeira na escola do hospital de Treviso. A formação profissional permitiu que sua disposição para servir fosse acompanhada dos conhecimentos necessários ao trabalho.

Ao longo dos anos, passou por diferentes setores e assistiu pessoas em diversas condições. O ambiente hospitalar lhe apresentou doenças infecciosas, dores prolongadas, situações de abandono e a proximidade da morte. O contato repetido com o sofrimento não lhe retirou a capacidade de se comover.

Para Maria Bertilla, o paciente merecia atenção em sua realidade inteira. O tratamento do corpo vinha acompanhado da necessidade de escuta, de tranquilidade e, quando acolhida pelo enfermo, de assistência espiritual. A oração sustentava seu serviço, enquanto o trabalho lhe oferecia ocasiões concretas de viver a caridade.

Essa maneira de cuidar conferiu profundidade à sua vocação. A enfermaria exigia gestos cotidianos, repetidos e por vezes exaustivos. Era nesse trabalho que ela procurava reconhecer a dignidade de cada pessoa e responder às suas necessidades.

Seu testemunho permanece particularmente próximo de quem exerce profissões de cuidado. A atenção ao enfermo exige conhecimento, responsabilidade e uma disponibilidade que se renova diante de cada rosto.

 

A guerra, os deslocamentos e as incompreensões

 

A Primeira Guerra Mundial tornou o serviço hospitalar ainda mais exigente. A entrada da Itália no conflito, em 1915, ampliou as necessidades de assistência e trouxe para o cotidiano das instituições de saúde os efeitos da violência, dos ferimentos e da desorganização provocada pela guerra.

Treviso sofreu ataques aéreos. Os relatos sobre Maria Bertilla nesse período recordam sua permanência junto dos pacientes que precisavam de ajuda, inclusive durante momentos de perigo. Ela também sentia medo, mas procurava continuar assistindo aqueles que não tinham condições de se proteger sozinhos.

A guerra tornou particularmente urgente uma responsabilidade já presente em sua vida: acompanhar pessoas cuja segurança dependia do cuidado de outros. Entre os enfermos e os feridos, encontrou sofrimentos que a atingiam profundamente.

Em 1917, após a derrota italiana em Caporetto e o agravamento da situação militar, o hospital de Treviso foi evacuado. Maria Bertilla acompanhou o deslocamento dos doentes e das equipes de assistência, passando pelo hospital militar de Viggiù, então situado na província de Como.

O afastamento de Treviso trouxe mudanças de comunidade, de organização e de trabalho. Nesse período, enfrentou incompreensões com pessoas responsáveis pelo serviço e pela vida religiosa. Chegou a ser retirada da assistência direta aos enfermos e destinada à lavanderia.

Essa experiência lhe causou sofrimento. O cuidado dos pacientes havia se tornado uma parte central de sua missão, e ser afastada dele significava uma provação pessoal. Maria Bertilla procurou atravessá-la sem abandonar sua vida de oração ou transformar a mágoa em hostilidade.

O retorno a Treviso, em 1919, permitiu que retomasse a assistência hospitalar. A experiência da guerra havia deixado marcas nas pessoas e nas instituições. Nesse cenário, continuou a exercer a enfermagem, sustentando o compromisso que assumira antes do conflito.

Sua fidelidade foi construída também nesses períodos difíceis, quando servir exigia aceitar mudanças, enfrentar a insegurança e perseverar apesar de não se sentir compreendida.

 

A doença, a morte e o reconhecimento da Igreja

 

Enquanto cuidava dos enfermos, Maria Bertilla enfrentava uma doença grave. Por volta dos vinte e dois anos, havia sido submetida a uma primeira cirurgia por causa de um tumor. Após esse episódio, continuou trabalhando, mas a enfermidade voltou a se manifestar e comprometeu progressivamente sua saúde.

Nos últimos anos, a dedicação aos pacientes conviveu com dores e limitações pessoais. A religiosa que tantas vezes acompanhara a fragilidade alheia precisou enfrentar a própria dependência e a possibilidade de uma morte próxima.

Em outubro de 1922, seu estado se agravou. Foi submetida a outra intervenção cirúrgica, que não conseguiu impedir o avanço da doença. A equipe médica e suas irmãs de comunidade acompanharam seus últimos dias, reconhecendo a gravidade da situação.

Maria Bertilla morreu em Treviso, em 20 de outubro de 1922, aos trinta e quatro anos. Sua morte encerrou uma vida breve, passada em grande parte no serviço hospitalar. A lembrança que deixou estava ligada à forma como havia trabalhado, rezado e tratado as pessoas.

A fama de santidade cresceu depois de sua morte. A Igreja examinou seu testemunho e reconheceu nela uma vida de virtudes cristãs vividas com profundidade. Foi beatificada pelo Papa Pio XII em 8 de junho de 1952 e canonizada pelo Papa João XXIII em 11 de maio de 1961.

Na homilia de canonização, João XXIII destacou a humildade, a formação cristã e a caridade para com os enfermos como aspectos fundamentais de sua trajetória. Sua vida oferecia à Igreja um exemplo de santidade amadurecida no trabalho diário e na correspondência à vocação recebida.

A memória de Santa Maria Bertilla é especialmente significativa para enfermeiros, profissionais da saúde, cuidadores e pessoas que enfrentam doenças. Seu exemplo recorda o valor de um serviço realizado com atenção e perseverança, mesmo quando não recebe reconhecimento imediato.

Na jovem camponesa de Brendola, a Igreja reconheceu uma mulher que permitiu à fé orientar suas escolhas e seu modo de cuidar. Sua história conserva a força dos gestos concretos: aprender para servir melhor, permanecer junto de quem sofre e oferecer ao outro uma presença paciente.

 

Referências Bibliográficas

 

  • Chiades, Antonio. Tutto è niente. Vicenza: Suore Maestre di Santa Dorotea, Figlie dei Sacri Cuori, 2001.
  • Dicastero delle Cause dei Santi. Maria Bertilla Boscardin. Perfil biográfico na coleção “Santi e Beati”. Cidade do Vaticano, s.d.
  • João XXIII. Omelia nella canonizzazione di Santa Maria Bertilla Boscardin. 11 de maio de 1961. Acta Apostolicae Sedis, v. 53, 1961, p. 291–295.
  • Suore Maestre di Santa Dorotea, Figlie dei Sacri Cuori. Pellegrinaggio all’urna delle reliquie di S. Maria Bertilla Boscardin: sussidio di preghiera per i pellegrini. Treviso: Oasi Santa Bertilla, 2022.
  • Vatican News. Santa Maria Bertilla Boscardin, vergine, di Vicenza. Seção “Santo del giorno”, 20 de outubro. Cidade do Vaticano: Dicastero per la Comunicazione, s.d.
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