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Santo do Dia

18 de outubro de 2026

São Lucas, Evangelista
18 de outubro

São Lucas, Evangelista

século I – século I

Médico, companheiro de São Paulo e autor do terceiro Evangelho e dos Atos dos Apóstolos, São Lucas deixou um dos testemunhos mais ricos sobre a vida de Cristo, a ação do Espírito Santo e o nascimento da Igreja.

São Lucas pertence à primeira geração cristã e ocupa um lugar singular na história da Igreja, pois a tradição antiga o reconhece como autor do terceiro Evangelho e dos Atos dos Apóstolos, duas obras que, reunidas, constituem uma parte considerável do Novo Testamento e oferecem um dos testemunhos mais amplos sobre a vida de Cristo e os primeiros anos da comunidade cristã.

São Paulo o chama de “médico amado” na Carta aos Colossenses, enquanto em outras cartas o inclui entre seus colaboradores mais próximos. Sua origem exata não é conhecida com segurança, embora uma tradição muito antiga o relacione a Antioquia da Síria, uma das maiores cidades do Império Romano e um dos primeiros centros importantes do cristianismo fora da Palestina, onde os discípulos de Jesus receberam pela primeira vez o nome de cristãos e de onde partiram algumas das grandes viagens missionárias de Paulo.

A formação de Lucas provavelmente foi elevada para os padrões de seu tempo, pois o grego empregado em seus escritos demonstra domínio da língua, familiaridade com a cultura helenística e grande capacidade de organizar acontecimentos, discursos e personagens numa narrativa coerente. A tradição sobre sua profissão de médico encontra fundamento direto nas palavras de São Paulo e também se harmoniza com certas características de seus textos, nos quais aparecem particular atenção às enfermidades, às curas e à situação concreta daqueles que sofrem.

Lucas não pertenceu ao grupo dos Doze Apóstolos e não afirma ter sido testemunha direta de todos os acontecimentos que narra. Logo no início de seu Evangelho, explica que investigou cuidadosamente os fatos transmitidos por aqueles que haviam sido testemunhas desde o princípio, organizando esse material para que seu leitor pudesse reconhecer a segurança daquilo que havia recebido na fé. Sua obra, portanto, apresenta-se como fruto de uma investigação diligente, apoiada na tradição apostólica e destinada a conservar com fidelidade a memória de Jesus Cristo.

Em algum momento de sua vida, Lucas tornou-se companheiro próximo de São Paulo. Essa ligação aparece de maneira particularmente sugestiva nos Atos dos Apóstolos, pois em determinados trechos a narrativa deixa a terceira pessoa e passa para a primeira pessoa do plural, utilizando expressões como “nós partimos” ou “nós navegamos”. Essas passagens, tradicionalmente chamadas de “seções nós”, foram interpretadas desde muito cedo como indício de que o próprio autor acompanhou Paulo em algumas etapas de suas viagens missionárias.

Lucas esteve ligado às missões realizadas através da Macedônia e de outras regiões do mundo greco-romano e também aparece associado à longa viagem que conduziu Paulo até Roma, depois de o Apóstolo ter apelado para César. Durante esse percurso, o navio enfrentou uma violenta tempestade e acabou naufragando nas proximidades de Malta; o relato dos Atos conserva numerosos detalhes sobre a navegação, o perigo enfrentado pelos passageiros e a sobrevivência daqueles que estavam a bordo, o que contribuiu para a convicção tradicional de que Lucas conhecia os acontecimentos por experiência direta.

Sua fidelidade a Paulo parece ter continuado mesmo nos períodos mais difíceis. Na Segunda Carta a Timóteo, associada pela tradição à última prisão do Apóstolo, encontra-se a significativa afirmação de que Lucas permanecia com ele quando outros colaboradores já haviam partido, razão pela qual a memória cristã o conservou não apenas como evangelista, mas também como companheiro leal do grande missionário dos gentios.

 

O Evangelho da misericórdia

 

O Evangelho segundo São Lucas possui características próprias entre os quatro Evangelhos e revela uma atenção particular à misericórdia de Deus, à conversão dos pecadores, aos pobres, aos doentes e àqueles que se encontravam à margem da sociedade. Desde as primeiras linhas, Lucas declara que procurou apresentar os acontecimentos de maneira ordenada e dirige sua obra a uma pessoa chamada Teófilo, provavelmente alguém já introduzido na fé cristã e que precisava receber uma exposição sólida daquilo que havia aprendido.

Algumas das parábolas mais conhecidas de Jesus foram conservadas somente por Lucas, entre elas a do Bom Samaritano, na qual Cristo apresenta a verdadeira caridade através de um homem que interrompe sua própria viagem para socorrer um desconhecido ferido, e a do filho pródigo, também chamada de parábola do pai misericordioso, na qual um filho que abandona a casa e desperdiça sua herança encontra, ao regressar arrependido, um pai disposto a recebê-lo com alegria.

Lucas também é o único evangelista a conservar de maneira tão desenvolvida o encontro de Jesus com Zaqueu, o publicano desprezado que se converte depois de acolher Cristo em sua casa, assim como o diálogo de Jesus crucificado com o criminoso arrependido, tradicionalmente chamado de Bom Ladrão, a quem promete o Paraíso. Em toda a obra, aparece repetidamente a imagem de Cristo aproximando-se daqueles que muitos consideravam perdidos, não para aprovar o pecado, mas para conduzi-los à conversão e restaurar sua comunhão com Deus.

Essa dimensão explica por que o terceiro Evangelho se tornou particularmente associado à misericórdia divina. A compaixão de Cristo não é apresentada como simples sentimento, mas como ação concreta que procura, cura, perdoa e chama novamente aqueles que haviam se afastado.

Ao mesmo tempo, Lucas dedica atenção singular aos pobres e às desigualdades humanas, insistindo na necessidade de usar os bens com justiça e de não fechar o coração diante do sofrimento dos outros. Em suas páginas, a salvação oferecida por Cristo aparece destinada a todos, ultrapassando diferenças de origem, posição social e condição pessoal.

 

Maria e a infância de Cristo

 

São Lucas ocupa também lugar especial na tradição mariana da Igreja, porque nenhum outro evangelista preservou tantos acontecimentos relacionados à infância de Jesus e à participação da Virgem Maria nos primeiros momentos da história da salvação.

Seu Evangelho narra detalhadamente a Anunciação do anjo Gabriel, que comunica a Maria que ela seria a mãe do Messias, bem como a Visitação a Isabel, ocasião em que Lucas conserva o Magnificat, o cântico no qual Maria proclama a grandeza de Deus e reconhece as maravilhas que Ele realizou nela e em favor de seu povo.

Também é Lucas quem oferece o relato mais desenvolvido do nascimento de Jesus em Belém, da visita dos pastores, da circuncisão, da apresentação do Menino no Templo e das profecias de Simeão e Ana. Mais tarde, narra ainda o episódio de Jesus aos doze anos entre os doutores do Templo, quando Maria e José o encontram depois de três dias de procura.

Em diversas passagens relacionadas à infância de Cristo, Lucas observa que Maria conservava os acontecimentos em seu coração e meditava sobre eles. Essa atenção tão particular à experiência da Virgem levou antigas tradições cristãs a imaginar que Lucas pudesse ter recebido diretamente dela parte das informações que utilizou para compor os primeiros capítulos de seu Evangelho. Não há documentação suficiente para demonstrar historicamente um encontro pessoal entre ambos, mas a tradição expressa a percepção de que essas páginas conservam uma memória especialmente próxima do ambiente de Maria.

Séculos depois surgiu também a tradição segundo a qual Lucas teria sido pintor e realizado retratos da Virgem Maria. Diversos ícones antigos foram atribuídos a ele ao longo do tempo, embora essa tradição seja posterior e não possa ser comprovada historicamente. Ainda assim, ela contribuiu para que São Lucas fosse venerado também como patrono dos pintores, iconógrafos e artistas cristãos.

 

Dos feitos de Cristo ao nascimento da Igreja

 

Os Atos dos Apóstolos formam a continuação direta do Evangelho de Lucas. As duas obras são dirigidas a Teófilo e compõem uma única grande narrativa: enquanto o Evangelho apresenta a vida, a missão, a morte e a ressurreição de Jesus, os Atos mostram como essa missão continua através da Igreja sob a ação do Espírito Santo.

A narrativa começa com a Ascensão de Cristo e apresenta os Apóstolos reunidos em Jerusalém, aguardando o cumprimento da promessa feita pelo Senhor. No dia de Pentecostes, o Espírito Santo desce sobre eles e inaugura uma nova etapa da missão cristã, dando início à pregação pública que levaria a mensagem de Cristo para além dos limites de Jerusalém.

Lucas descreve a atuação de São Pedro, as primeiras conversões, a vida comunitária dos cristãos, os conflitos enfrentados pelos discípulos e o martírio de Santo Estêvão, considerado o primeiro mártir da Igreja. Em seguida, dedica grande atenção à conversão de Saulo, inicialmente perseguidor dos cristãos, que depois se tornaria São Paulo e levaria o Evangelho a numerosas cidades do mundo mediterrânico.

À medida que os Atos avançam, a missão deixa de permanecer concentrada em Jerusalém e alcança progressivamente os gentios. Lucas acompanha esse movimento mostrando como o cristianismo, nascido no ambiente judaico da Palestina, começou a espalhar-se entre povos de diferentes culturas e línguas.

A narrativa termina com São Paulo em Roma, coração político do Império, para onde havia sido levado como prisioneiro depois de apelar para César. Mesmo privado da liberdade, Paulo continua anunciando Cristo, e a chegada do Evangelho à capital imperial assume forte valor simbólico: a Palavra que partira de Jerusalém havia alcançado o centro do mundo mediterrânico.

Em toda essa trajetória, Lucas apresenta o Espírito Santo como verdadeiro guia da Igreja. É o Espírito quem fortalece os discípulos, inspira decisões, envia missionários, abre caminhos e conduz a pregação através de fronteiras que pareciam impossíveis de atravessar. Por essa razão, os Atos dos Apóstolos permanecem uma das fontes fundamentais para o conhecimento dos primeiros anos do cristianismo e para a compreensão da identidade missionária da Igreja.

Sem a obra de Lucas, conheceríamos muito menos sobre Pentecostes, a organização das primeiras comunidades, o martírio de Estêvão, a conversão de Paulo, as viagens missionárias e a expansão inicial da fé cristã.

 

Últimos anos, morte e legado

 

Depois dos acontecimentos relacionados à missão de São Paulo, as informações historicamente seguras sobre os últimos anos de Lucas tornam-se escassas. Antigas tradições afirmam que continuou dedicando-se à evangelização depois da morte dos Apóstolos com quem havia convivido, e diferentes regiões do mundo grego foram posteriormente associadas à sua pregação.

Uma tradição antiga situa seus últimos anos na Beócia, região da Grécia central, onde teria morrido em idade avançada. As fontes posteriores divergem sobre as circunstâncias de sua morte, pois algumas o apresentam como mártir, enquanto outras afirmam que terminou seus dias de maneira natural depois de uma longa vida dedicada ao anúncio do Evangelho. Por essa razão, não é possível estabelecer com segurança os detalhes de seus últimos momentos.

Seu culto, entretanto, é muito antigo e se difundiu amplamente entre as comunidades cristãs, sobretudo pela importância de seus escritos. Tradições posteriores relacionaram suas relíquias a Constantinopla, para onde teriam sido transferidas no século IV, e mais tarde diferentes partes delas passaram a ser veneradas também no Ocidente, especialmente em Pádua.

A Igreja celebra sua memória litúrgica em 18 de outubro. Por ter sido chamado de médico por São Paulo, Lucas tornou-se patrono dos médicos e de diversos profissionais ligados à saúde; devido à antiga tradição que lhe atribuiu imagens da Virgem Maria, passou também a ser venerado como patrono dos pintores e artistas.

Seu legado principal, porém, permanece nos dois livros que deixou à Igreja. No Evangelho, Lucas apresenta Cristo como Salvador oferecido a todos, profundamente atento aos pobres, pecadores, enfermos e marginalizados; nos Atos dos Apóstolos, mostra que a missão de Cristo não terminou com a Ascensão, mas continuou através da Igreja conduzida pelo Espírito Santo.

Poucos homens da primeira geração cristã exerceram influência tão duradoura sem pertencer ao grupo dos Doze. Lucas acompanhou missionários, permaneceu fiel a Paulo nos momentos difíceis e reuniu cuidadosamente as tradições recebidas daqueles que haviam conhecido Jesus, conservando para as gerações seguintes algumas das páginas mais belas do Novo Testamento: a Anunciação, o Magnificat, o nascimento em Belém, o Bom Samaritano, o filho pródigo, os discípulos de Emaús, Pentecostes e os primeiros passos da Igreja.

Por meio de sua obra, São Lucas tornou-se uma ponte entre aqueles que haviam contemplado diretamente Cristo e todas as gerações que, depois deles, conheceriam o Senhor através do testemunho apostólico.

 

Referências bibliográficas

 

BÍBLIA SAGRADA. Evangelho segundo São Lucas; Atos dos Apóstolos; Colossenses 4,14; Filemon 24; 2 Timóteo 4,11.

IRENEU DE LIÃO. Adversus Haereses. Livro III.

EUSÉBIO DE CESAREIA. Historia Ecclesiastica. Livros III e VI.

JERÔNIMO. De viris illustribus. Capítulo 7.

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Martyrologium Romanum. Editio typica altera. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2004.

FITZMYER, Joseph A. The Gospel According to Luke I–IX. Anchor Bible, 28. Garden City: Doubleday, 1981.

FITZMYER, Joseph A. The Gospel According to Luke X–XXIV. Anchor Bible, 28A. Garden City: Doubleday, 1985.

FITZMYER, Joseph A. The Acts of the Apostles. Anchor Bible, 31. New York: Doubleday, 1998.

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