Fulton J. Sheen
A vida, a fé e o legado do grande evangelizador
A voz que alcançou milhões pelo rádio e pela televisão sustentada pela adoração diária e pela devoção filial a Nossa Senhora.
Durante décadas, milhões de pessoas conheceram sua voz antes de conhecer seu rosto. Primeiro pelo rádio, depois pela televisão, Fulton J. Sheen entrou nas casas de católicos e não católicos, falou a multidões, escreveu dezenas de livros, ensinou filosofia e teologia, percorreu o mundo, serviu aos pobres e às missões e tornou-se um dos mais conhecidos bispos católicos do século XX.
Mas por trás do homem que milhões admiravam havia uma vida muito mais silenciosa: a de um sacerdote que fazia diariamente uma hora de adoração diante do Santíssimo Sacramento, que confiou seu sacerdócio à Virgem Maria, que conheceu fracassos e incompreensões, que sofreu fisicamente, que experimentou tensões dentro da própria Igreja e que, no fim da vida, desejava simplesmente permanecer fiel a Cristo.
É justamente essa dimensão interior que permite compreender Fulton Sheen.
Amanhã, 24 de setembro de 2026, a Igreja celebrará em Saint Louis, nos Estados Unidos, a beatificação de Fulton J. Sheen, um dos mais conhecidos evangelizadores católicos do século XX. A cerimônia será presidida pelo cardeal Luis Antonio Tagle, como representante do Papa Leão XIV. Na audiência geral de hoje, às vésperas da celebração, o próprio Papa recordou Sheen como um bispo conhecido por seu trabalho de evangelização através dos meios de comunicação e desejou que seu exemplo inspire novas formas de anunciar o Evangelho.
Mas, antes de ser o famoso bispo que milhões de pessoas conheceriam pelo rádio e pela televisão, Fulton Sheen foi uma criança de uma família católica de Illinois, um menino que servia no altar, um estudante brilhante e um jovem que descobriu muito cedo que sua vida estava sendo chamada ao sacerdócio. Sua história é a de um homem dotado de extraordinária inteligência e capacidade de comunicação, mas cuja força apostólica nasceu de uma vida espiritual profunda, marcada sobretudo pela Eucaristia e pela devoção à Santíssima Virgem.
Da infância em Peoria à vocação sacerdotal
Fulton John Sheen nasceu em 8 de maio de 1895, em El Paso, Illinois, filho de Newton Morris Sheen e Delia Fulton Sheen. Pouco depois, a família mudou-se para Peoria, onde os pais procuraram proporcionar aos filhos uma sólida educação católica. A vida familiar era simples e profundamente religiosa: havia oração antes das refeições, o Rosário rezado todas as noites e frequentes contatos com os sacerdotes da região. A fé não era apenas uma prática dominical, mas fazia parte da rotina da família.
Desde cedo, Fulton demonstrou uma inteligência excepcional. Era excelente nos estudos, possuía grande facilidade para memorizar informações e destacou-se em disciplinas como história, matemática, religião e literatura. Também revelou muito cedo seu talento para falar em público e participar de debates. Entretanto, não tinha qualquer vocação para a vida rural. Embora obedecesse às tarefas que recebia na fazenda da família, não gostava daquele trabalho e percebeu rapidamente que seu caminho seria outro.
Aos oito anos, começou a servir como coroinha na Catedral de Santa Maria, em Peoria. Foi ali que aconteceu um episódio que ele recordaria durante toda a vida. Enquanto ajudava na Missa celebrada pelo bispo John Lancaster Spalding, deixou cair uma galheta de vinho no chão de mármore da catedral. O enorme estrondo o deixou apavorado, mas o bispo não o repreendeu. Ao contrário, conversou com o menino e perguntou onde pretendia estudar quando crescesse. Quando Fulton respondeu que iria para o Spalding Institute, o bispo insistiu: queria saber onde estudaria depois. Então mencionou a Universidade de Louvain, na Bélgica, e disse que um dia ele deveria estudar ali. Muitos anos depois, já sacerdote, Sheen se lembraria daquele encontro ao pisar pela primeira vez em Louvain.
A vocação sacerdotal também surgiu muito cedo. Depois da Primeira Comunhão, aos doze anos, Fulton começou a rezar secretamente para que Deus o chamasse ao sacerdócio. Durante anos guardou esse desejo para si. Quando finalmente revelou aos pais sua intenção de entrar no seminário, descobriu que eles já rezavam havia muito tempo para que um de seus filhos recebesse essa vocação. O conselho que recebeu foi simples: “Seja um bom padre.”
Fulton estudou no Saint Viator College e posteriormente no Saint Paul Seminary, em Minnesota. Foi ordenado sacerdote para a Diocese de Peoria em 20 de setembro de 1919. Sua ordenação marcou o início de uma longa vida sacerdotal na qual o estudo, a pregação, a oração e a evangelização estariam profundamente unidos.
O sacerdote, professor e pregador
Depois da ordenação, Sheen iniciou uma formação intelectual extraordinária. Estudou na Catholic University of America, em Washington, e posteriormente na Universidade de Louvain, na Bélgica, onde obteve seu doutorado em filosofia em 1923. Também estudou em Roma e passou um período na Inglaterra, onde ensinou teologia. Seu conhecimento abrangia filosofia, teologia, literatura, história e as principais correntes intelectuais de seu tempo.
Quando voltou aos Estados Unidos, começou a lecionar na Catholic University of America. Durante anos, seria professor de filosofia e religião, mas sua atividade ultrapassaria rapidamente os limites da universidade. Sheen possuía uma capacidade incomum de transformar conceitos complexos em explicações acessíveis. Para ele, uma ideia profunda não precisava ser apresentada de maneira complicada. O verdadeiro professor deveria conseguir conduzir o aluno do que era conhecido para aquilo que ainda não compreendia.
Foi justamente essa capacidade que o preparou para uma nova forma de apostolado. Em 1930, Sheen tornou-se o primeiro grande pregador regular do programa radiofônico The Catholic Hour, transmitido pela NBC. O programa começou em uma pequena rede, mas alcançou rapidamente uma audiência extraordinária. Em 1950, já era transmitido por mais de uma centena de emissoras da NBC, além de chegar a outros países por ondas curtas. A audiência semanal nos Estados Unidos era estimada em aproximadamente quatro milhões de pessoas, e Sheen recebia milhares de cartas de ouvintes, muitos deles não católicos.
O rádio transformou seu apostolado. Sheen percebeu que podia falar de Cristo para pessoas que jamais entrariam espontaneamente em uma igreja. Em vez de tratar os meios de comunicação modernos como uma ameaça à fé, ele os enxergou como instrumentos que poderiam ser colocados a serviço da evangelização.
Essa visão alcançaria seu ponto mais conhecido com a televisão. Em 1951, começou o programa Life Is Worth Living, no qual Sheen apresentava semanalmente reflexões sobre a vida humana, a fé, o sofrimento, a liberdade, o pecado, a felicidade e o destino eterno. Seu estilo era simples e pessoal. Diante de uma câmera, muitas vezes apenas com um quadro-negro, conseguia prender a atenção de milhões de pessoas.
Em seu primeiro ano na televisão, recebeu o Emmy de personalidade televisiva mais destacada, enquanto seu programa se transformava em um dos grandes fenômenos da televisão americana. Em meados da década de 1950, suas transmissões alcançavam dezenas de milhões de pessoas por semana. A fama, porém, nunca fez Sheen esquecer a finalidade que atribuía àquele trabalho: utilizar todos os recursos disponíveis para falar ao homem moderno sobre Deus e o sentido da vida.
Sua produção escrita foi igualmente extraordinária. Ao longo de décadas, publicou dezenas de livros e numerosos artigos, folhetos e textos de rádio. Escreveu sobre Cristo, Maria, o sacerdócio, o sofrimento, a moral, a filosofia, a psicologia e os problemas da sociedade moderna. Entre seus livros mais conhecidos estão Life of Christ, Peace of Soul, The World's First Love, The Priest Is Not His Own, Go to Heaven, Victory Over Vice, The Calvary and the Mass e Your Life Is Worth Living.
Em todos esses trabalhos havia uma preocupação fundamental: mostrar que a vida humana não pode ser compreendida plenamente sem Deus. Para Sheen, as grandes questões humanas — o sofrimento, a solidão, o amor, a culpa, a morte e a busca pela felicidade — encontravam sua resposta definitiva em Cristo.
A Eucaristia e Nossa Senhora
Por trás de toda essa atividade havia uma vida espiritual muito mais silenciosa. No dia de sua ordenação sacerdotal, Sheen assumiu duas resoluções que procuraria manter até o fim da vida. A primeira foi dedicar diariamente uma hora à adoração diante do Santíssimo Sacramento. A segunda foi oferecer a Missa de cada sábado em honra da Santíssima Virgem, pedindo sua proteção para seu sacerdócio.
"A chamada Hora Santa tornou-se uma das marcas de sua espiritualidade. (...) Para ele, aquela hora não era simplesmente uma obrigação espiritual: era o momento em que permanecia na presença de Cristo e procurava unir-se à sua oração no Getsêmani."
Sheen dizia que não queria apresentar essa prática como prova de uma santidade pessoal extraordinária. Pelo contrário, considerava que precisava daquela hora de oração justamente porque era fraco e necessitava da graça de Deus para cumprir sua missão. Sua intensa atividade pública só podia ser sustentada por uma vida interior igualmente intensa.
Sua devoção a Nossa Senhora começou ainda na infância. Sua mãe, Delia, tinha uma profunda devoção mariana e colocou o filho sob a proteção da Virgem desde o início de sua vida. Depois da Primeira Comunhão, Fulton aprofundou pessoalmente essa consagração e passou a rezar diariamente a Ladainha de Nossa Senhora.
Essa devoção permaneceu durante toda a sua existência. Sheen visitou repetidamente os santuários de Lourdes e Fátima e dedicou um de seus livros mais conhecidos à Virgem Maria. Quando se tornou bispo, escolheu como lema: “Concedei que eu chegue a Vós por Maria.” Para ele, a devoção mariana jamais afastava de Cristo; ao contrário, Maria conduzia necessariamente ao Filho.
Foi essa união entre oração e apostolado que sustentou sua vida durante os anos de maior fama. Enquanto milhões conheciam sua voz, quase ninguém via as longas horas de oração que estavam por trás de seu trabalho.
O bispo e as provações
Em 1951, Fulton Sheen foi consagrado bispo em Roma. Durante os anos seguintes, continuou seu trabalho de evangelização e assumiu uma responsabilidade cada vez maior pelas missões. Foi diretor nacional da Society for the Propagation of the Faith, dedicando grande parte de seu trabalho à divulgação e ao apoio das missões católicas.
Sua fama, entretanto, também trouxe dificuldades. Quanto mais conhecido se tornava, mais complexas eram suas relações com outras autoridades eclesiásticas. Sua trajetória esteve marcada por tensões, incompreensões e algumas situações que acabariam produzindo grande sofrimento pessoal.
Em 1966, o Papa Paulo VI o nomeou bispo de Rochester, em Nova York. A experiência foi muito diferente daquela que havia vivido como grande pregador e comunicador. Agora precisava administrar uma diocese em um período de profundas transformações na Igreja e na sociedade, imediatamente após o Concílio Vaticano II.
Sheen procurou colocar em prática uma pastoral voltada para as necessidades concretas das pessoas e para os setores mais vulneráveis da sociedade. No entanto, encontrou dificuldades e resistências. Depois de pouco mais de dois anos, renunciou ao governo da Diocese de Rochester. Em 1969, Paulo VI o nomeou arcebispo titular de Newport.
A experiência de Rochester foi uma das grandes provações de sua vida. O homem que havia conhecido uma fama extraordinária precisou aceitar também a experiência da incompreensão e do fracasso.
Sua vida, portanto, não pode ser contada apenas como uma sucessão de conquistas. Houve momentos em que precisou aprender a perder, a suportar críticas e a continuar servindo a Igreja mesmo quando as circunstâncias não correspondiam às suas expectativas. E foi justamente nesses momentos que sua espiritualidade se revelou com maior profundidade.
Os últimos anos e o legado
Depois de deixar Rochester, Sheen continuou escrevendo, pregando e evangelizando. Mesmo com a idade avançada, manteve uma intensa atividade pastoral. Continuava convencido de que os meios de comunicação poderiam ser utilizados para alcançar pessoas que estavam afastadas da Igreja, e seus livros, gravações e programas continuaram a circular muito depois de seus anos de maior popularidade.
Sua morte aconteceu em Nova York, em 9 de dezembro de 1979, aos 84 anos. Durante sua vida, havia conhecido universidades, catedrais lotadas, estúdios de televisão, palácios, encontros com papas e grandes autoridades. Mas também conhecera o silêncio da oração, o sofrimento, as dificuldades e as limitações próprias de uma vida humana.
Essa combinação ajuda a compreender por que sua figura permanece tão singular. Fulton Sheen foi um intelectual brilhante, um professor, escritor, sacerdote, bispo e comunicador de alcance internacional. Mas não considerava nenhuma dessas coisas o centro de sua existência. Seu objetivo fundamental era levar as pessoas a Cristo.
Em 2012, Bento XVI reconheceu oficialmente suas virtudes heroicas e Fulton Sheen foi declared Venerável. Em 2019, foi reconhecido um milagre atribuído à sua intercessão, abrindo o caminho para a beatificação.
Amanhã, quando Fulton Sheen for proclamado Beato em Saint Louis, será reconhecido não apenas o grande comunicador que levou o Evangelho ao rádio e à televisão, mas o sacerdote que passou mais de sessenta anos procurando permanecer fiel à sua vocação.
Fulton Sheen passou a vida falando de Deus aos homens. No fim, deixou também uma lição silenciosa: para falar de Deus ao mundo, é preciso primeiro aprender a permanecer com Deus.
Como saber mais sobre Fulton Sheen: livros disponíveis no Brasil
Conhecer Fulton Sheen por sua vida e por sua obra de evangelização é apenas o começo. Uma das melhores maneiras de compreender a profundidade de seu pensamento é recorrer aos seus próprios livros, nos quais aparecem, com maior desenvolvimento, os temas que marcaram sua pregação: a Eucaristia, a Cruz de Cristo, Nossa Senhora, o sacerdócio, a família, a educação dos filhos, a vida espiritual e os desafios enfrentados pelo cristão no mundo moderno.
Atualmente, já existe no Brasil um número significativo de obras de Fulton Sheen publicadas em português, por diferentes editoras. Entre elas, a Paulus possui um catálogo particularmente amplo. Encontram-se ali títulos como Vida de Cristo, Vale a Pena Viver, O Catecismo, O Sacerdote não se Pertence, Pais e Filhos, O Calvário e a Missa, Por Deus e pela Pátria, Corações ao Alto, As 7 Virtudes e as Sete Palavras de Cristo na Cruz, A Via Sacra, Meditações sobre a Paixão de Cristo e Oração, Sofrimento e Vida Espiritual. A editora também publicou novas edições de algumas obras que permitem ao leitor brasileiro entrar em contato com diferentes períodos e aspectos da produção de Sheen.
A Molokai também reúne uma coleção expressiva do autor, com títulos como A Paz da Alma, Justiça e Caridade, Meditações sobre a Paixão de Cristo, O Catecismo, O Corpo Místico de Cristo, O Eterno Galileu, Oração, Sofrimento e Vida Espiritual, Por Deus e pela Pátria, Rumo ao Céu, Tesouro em Barro, Três para Casar, Uma Declaração de Dependência, Verdades Eternas que Falam à Alma e Via Sacra.
A Editora Petra concentra algumas das obras mais conhecidas de Sheen voltadas à vida cristã e à família, entre elas O Primeiro Amor do Mundo e Três para Casar. Já a Katechesis publicou Filhos e Pais: Sabedoria e Orientação para os Pais, obra dedicada à educação dos filhos e às responsabilidades dos pais na formação moral e espiritual da família.
Para quem deseja conhecer o homem por trás do pregador, entretanto, há um caminho especialmente interessante. Tesouro em Barro, sua autobiografia, permite acompanhar a própria trajetória de Sheen, desde a infância em Peoria e os primeiros sinais de sua vocação até os anos de sacerdócio, estudo, ensino, pregação e apostolado através dos meios de comunicação. Para completar esse retrato, há também biografias e memórias familiares que ajudam a compreender aspectos de sua personalidade, de sua rotina de oração e de sua relação com aqueles que conviveram com ele.
Assim, depois de conhecer a história de Fulton Sheen, o leitor pode continuar sua descoberta diretamente por meio de sua extensa obra. Seus livros mostram que o homem que conquistou milhões de pessoas pelo rádio e pela televisão não dependia apenas de sua capacidade de comunicação: por trás de sua palavra havia uma vida inteira dedicada ao estudo, à oração, à Eucaristia, à Virgem Maria e ao anúncio da fé católica.
Referências Bibliográficas
- Sheen, Fulton J. Treasure in Clay: The Autobiography of Fulton J. Sheen. Ignatius Press, San Francisco, 2000.
- Reeves, Thomas C. America's Bishop: The Life and Times of Fulton J. Sheen. Encounter Books, San Francisco, 2001.
- Noonan, D. P. The Passion of Fulton Sheen. Dodd, Mead & Company, New York, 1972.
- Rodriguez, Janel. Meet Fulton Sheen: Beloved Preacher and Teacher of the Word. Servant Books, Cincinnati, 2006.
- Cunningham, Joan Sheen; Rodriguez, Janel. My Uncle Fulton Sheen. Ignatius Press, San Francisco, 2019.
- Sheen, Fulton J. Life of Christ. McGraw-Hill, New York.
- Sheen, Fulton J. The World's First Love: Mary, Mother of God. McGraw-Hill, New York.
- Sheen, Fulton J. Peace of Soul. McGraw-Hill, New York.
- Sheen, Fulton J. The Priest Is Not His Own. McGraw-Hill, New York.
- Sheen, Fulton J. Your Life Is Worth Living: The Christian Philosophy of Life.