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Santa Faustina e São Miguel Arcanjo: o combate espiritual por trás da Divina Misericórdia

Quaresma de São Miguel

Santa Faustina e São Miguel Arcanjo
O combate espiritual por trás da Divina Misericórdia

A proteção do Arcanjo na missão de uma santa chamada a recordar ao mundo a Misericórdia de Deus

A vida de Santa Maria Faustina Kowalska foi marcada por uma intimidade extraordinária com Deus e com o mundo sobrenatural. Jesus Cristo era o centro absoluto de sua vida e de sua missão, e sua profunda devoção à Santíssima Virgem Maria ocupava um lugar especial em seu caminho espiritual. Nossa Senhora era para Faustina Mãe, modelo de entrega à vontade de Deus e guia no caminho da santidade. Ao longo de sua vida, também aparecem com frequência os santos anjos: seu Anjo da Guarda, os Serafins, os Querubins e, de modo muito particular, São Miguel Arcanjo.

Essa presença não é um detalhe secundário de sua espiritualidade.

Quando olhamos atentamente para o Diário de Santa Faustina, percebemos que São Miguel aparece justamente no ponto em que se encontram alguns dos temas mais profundos de sua missão: a vontade de Deus, o combate contra o mal, a salvação das almas e a confiança na Divina Misericórdia.

E talvez seja justamente por isso que, durante a Quaresma de São Miguel, seja tão fecundo contemplar a relação entre esse grande Arcanjo e a pequena religiosa polonesa que recebeu de Cristo a missão de recordar ao mundo a Sua Misericórdia.

São Miguel, modelo de fidelidade à vontade de Deus

A primeira coisa que chama a atenção é que Santa Faustina não manifesta sua devoção a São Miguel principalmente por causa de seu poder, de sua aparência de guerreiro ou de sua vitória sobre Satanás.

Ela própria explica o motivo.

Em 14 de julho de 1936, escreveu no Diário:

“Tenho grande reverência por São Miguel Arcanjo; ele não teve nenhum exemplo a seguir no cumprimento da vontade de Deus e, no entanto, cumpriu fielmente a vontade de Deus.”

Essas poucas palavras revelam algo muito profundo.

Para Faustina, São Miguel era antes de tudo um modelo de obediência.

A santa estava profundamente preocupada com uma questão que percorre todo o seu Diário: como reconhecer e cumprir a vontade de Deus? Para ela, a santidade não consistia em realizar grandes obras segundo os próprios critérios, mas em permitir que Deus conduzisse completamente a própria vida.

Por isso, São Miguel se tornava um exemplo perfeito.

O Arcanjo é aquele que permanece inteiramente voltado para Deus. Seu próprio nome, tradicionalmente entendido como “Quem como Deus?”, exprime uma profissão de humildade: ninguém é como Deus; nenhuma criatura pode colocar sua própria vontade acima da vontade do Criador.

E essa verdade está no coração da espiritualidade de Faustina.

O verdadeiro combate espiritual começa dentro da própria alma.

Antes de lutar contra o demônio, é preciso renunciar àquilo que em nós deseja ocupar o lugar de Deus. Antes de expulsar o inimigo, é preciso dizer ao Senhor: “Seja feita a Vossa vontade”.

É nesse sentido que São Miguel se torna uma figura tão importante para compreender Santa Faustina.

“Quem como Deus?”

É a pergunta que destrói a soberba.

É a resposta ao orgulho.

É o grito daquele que reconhece que somente Deus é Deus.

Na festa de São Miguel, Faustina recebeu força para lutar

Há ainda um episódio particularmente significativo.

Em 29 de setembro de 1935, festa de São Miguel Arcanjo, Santa Faustina viveu uma profunda experiência de união com Deus. É importante esclarecer que o texto do Diário não afirma que São Miguel tenha aparecido a ela naquele dia. A aparição explícita do Arcanjo ocorreria somente no ano seguinte.

Naquela festa, porém, Faustina escreveu que a presença de Deus a penetrava profundamente e a enchia de paz, alegria e admiração. Depois dessa experiência, sentiu-se tomada por uma força extraordinária e por coragem para sofrer e lutar. As armadilhas do inimigo pareciam ser esmagadas diante do trono de Deus.

Essa passagem é preciosa porque mostra onde está a verdadeira força da santa.

Ela não acreditava em suas próprias forças.

Deus era a sua força.

São Miguel não aparece aqui como uma espécie de poder independente, rivalizando com o poder do demônio. Pelo contrário: toda a ação dos anjos está subordinada à soberania divina.

É Deus quem concede a graça.

São Miguel é seu servidor.

E a vitória pertence a Deus.

Essa é precisamente a verdade contida no nome do Arcanjo:

Quem como Deus?

O combate pela salvação das almas

A ligação entre São Miguel e a missão de Faustina se torna ainda mais impressionante quando observamos o contexto de sua vida interior.

Santa Faustina não lutava por uma causa pessoal.

Seu grande desejo era a salvação das almas.

Ela oferecia suas orações, seus sofrimentos e toda a sua vida pela conversão dos pecadores. A mensagem que recebeu de Cristo — a mensagem da Divina Misericórdia — deveria recordar ao mundo que ninguém deveria desesperar diante de seus pecados quando se volta com confiança para Deus.

E justamente aí se encontra uma dimensão profunda do combate espiritual.

O desespero afasta a alma de Deus.

A confiança a conduz de volta para Ele.

A Misericórdia proclama que o pecador ainda pode retornar.

Por isso, a missão de Faustina era, em sua essência, uma missão contra tudo aquilo que procura afastar o homem de Deus: o pecado, o desespero, a desconfiança, a soberba e a desesperança.

O Diário mostra que a própria santa experimentou oposição espiritual intensa. Ela relata ataques e presenças demoníacas, mas também registra repetidamente a proteção dos anjos. Seu Anjo da Guarda, por exemplo, aparece como companheiro e defensor em momentos de grande sofrimento espiritual. O Diário menciona anjos em mais de setenta passagens, mostrando que a consciência da realidade angélica fazia parte importante de sua vida sobrenatural.

Nesse grande cenário, São Miguel ocupa um lugar diferente.

O Anjo da Guarda acompanha a alma no caminho cotidiano.

São Miguel aparece relacionado ao grande combate contra o mal.

E é exatamente por isso que sua presença junto a Faustina é tão significativa.

“O Senhor ordenou-me que tivesse um cuidado especial por ti”

Um ano depois daquela experiência na festa de São Miguel, aconteceu a manifestação mais explícita do Arcanjo.

Era novamente 29 de setembro, festa de São Miguel, mas agora de 1936.

Santa Faustina escreveu:

“No dia da festa de São Miguel Arcanjo, vi ao meu lado aquele grande Líder...”

O Arcanjo lhe revelou que o Senhor havia ordenado que tivesse um cuidado especial por ela. Depois lhe disse que ela era odiada pelo mal e acrescentou:

“Não temas — Quem como Deus!”

Então desapareceu.

Mas Faustina acrescenta algo que talvez seja ainda mais importante do que a própria visão:

ela continuou sentindo a presença e a ajuda de São Miguel.

A mensagem é extraordinariamente simples.

“Não temas.”

O mal existe.

A luta é real.

A missão será difícil.

Mas não tenha medo.

Quem como Deus?

O demônio pode odiar.

Pode tentar assustar.

Pode procurar impedir a obra de Deus.

Mas não é Deus.

Seu poder é limitado.

Sua ação permanece submetida à soberania divina.

É essa certeza que São Miguel comunica a Faustina.

Justiça e Misericórdia: uma ligação que aparece no mesmo mês

Pouco antes da experiência de 29 de setembro de 1935, aconteceu outro dos episódios mais impressionantes do Diário.

Em setembro daquele ano, Santa Faustina contemplou um anjo que ela descreve como executor da justiça divina. O anjo estava prestes a executar um castigo sobre a terra.

Faustina começou então a interceder.

E, durante essa experiência, recebeu interiormente as palavras que dariam origem à oração da Coroinha da Divina Misericórdia:

“Eterno Pai, eu Vos ofereço...”

“Pela Sua dolorosa Paixão, tende misericórdia de nós e do mundo inteiro.”

No dia seguinte, Jesus lhe ensinaria a forma do Terço da Divina Misericórdia.

É importante, porém, não cometer um erro: Faustina nunca afirma que esse anjo era São Miguel. O Diário simplesmente o apresenta como o anjo executor da ira divina. Portanto, não devemos identificá-lo com o Arcanjo.

Mas existe uma proximidade espiritual muito bonita.

Primeiro, Faustina contempla a justiça divina.

Depois, intercede.

A Misericórdia é invocada.

Pouco depois, na festa de São Miguel, recebe força para combater as armadilhas do inimigo.

E, um ano mais tarde, São Miguel aparece pessoalmente para lhe assegurar proteção.

Podemos contemplar, assim, uma sequência espiritual:

justiça → intercessão → misericórdia → combate → proteção.

Tudo isso converge para a mesma realidade: a salvação das almas.

“Quem como Deus?” e “Jesus, eu confio em Vós”

Talvez exista uma maneira particularmente bela de aproximar São Miguel da espiritualidade de Santa Faustina.

São Miguel proclama:

“Quem como Deus?”

A mensagem de Jesus Misericordioso proclama:

“Jesus, eu confio em Vós.”

As duas frases não competem entre si.

Elas se completam.

“Quem como Deus?” significa:

não sou eu o centro.

“Jesus, eu confio em Vós” significa:

por isso, não deposito minha esperança em minhas próprias forças.

São Miguel nos ensina a abandonar o orgulho.

Faustina nos ensina a abandonar o desespero.

Um nos lembra que Deus é infinitamente maior que a criatura.

A outra nos lembra que esse Deus infinitamente maior é também infinitamente misericordioso.

É uma união profundamente católica: humildade diante da grandeza de Deus e confiança diante de Sua Misericórdia.

A Igreja de São Miguel e a imagem de Jesus Misericordioso

A relação entre São Miguel e Santa Faustina não ficou restrita às experiências interiores da santa.

Existe também uma ligação histórica surpreendente em Vilnius.

Foi ali que Faustina conheceu o Padre Michał Sopoćko, seu confessor e diretor espiritual, que teria papel decisivo no desenvolvimento da missão da Divina Misericórdia.

E Sopoćko era reitor da Igreja de São Miguel.

A primeira imagem de Jesus Misericordioso, pintada por Eugeniusz Kazimirowski em 1934 sob a orientação de Faustina e com a participação decisiva de Sopoćko, foi inicialmente colocada no corredor do convento das Irmãs Bernardinas, junto à Igreja de São Miguel. A primeira grande exposição pública da imagem, porém, ocorreu em Ostra Brama, em abril de 1935.

Somente depois, em 4 de abril de 1937, a imagem foi colocada solenemente para veneração pública na própria Igreja de São Miguel, no primeiro domingo depois da Páscoa, então chamado Domingo in Albis e hoje celebrado como Domingo da Divina Misericórdia.

É difícil não perceber a beleza espiritual dessa associação.

A igreja dedicada ao grande defensor da Igreja e vencedor do combate contra o mal tornou-se, naquele momento, um dos lugares decisivos para a propagação da imagem que trazia ao mundo uma mensagem aparentemente simples:

“Jesus, eu confio em Vós.”

São Miguel e a Divina Misericórdia não são duas devoções concorrentes.

Uma recorda o combate.

A outra revela onde está a verdadeira esperança do homem.

A imagem que sobreviveu ao combate

A história posterior daquela imagem parece quase uma continuação histórica do tema que acompanhou Faustina.

A Igreja de São Miguel foi fechada pelas autoridades soviéticas em 1948. A imagem, porém, não desapareceu.

Foi retirada clandestinamente, escondida e posteriormente transferida. Durante décadas permaneceu fora da veneração pública, sobrevivendo às perseguições religiosas e às mudanças políticas.

Somente em 2005 a imagem original retornou a Vilnius, onde foi instalada no atual Santuário da Divina Misericórdia.

Não precisamos afirmar que cada acontecimento histórico foi uma intervenção milagrosa de São Miguel, porque as fontes não nos autorizam a fazer essa afirmação.

Mas é impossível não contemplar, com os olhos da fé, a extraordinária história daquela imagem.

Ela nasceu no contexto da missão de Faustina.

Foi colocada junto à Igreja de São Miguel.

Foi posteriormente venerada na própria igreja dedicada ao Arcanjo.

Sobreviveu ao fechamento do templo.

Foi escondida para não ser destruída.

E finalmente voltou a ser venerada em Vilnius.

A história humana registra perseguições, esconderijos e riscos.

A história da fé registra também uma certeza:

a Misericórdia de Deus não pode ser apagada.

Uma santa protegida para uma missão

Santa Faustina não procurou os anjos.

Ela não buscava experiências extraordinárias.

O centro de sua vida permanecia sendo Jesus Cristo, a Eucaristia, a oração, a obediência, o cumprimento da vontade de Deus, a Igreja e a salvação das almas.

As manifestações angélicas aconteciam dentro dessa vida, e não no lugar dela.

Isso é essencial.

O objetivo da vida espiritual de Faustina nunca foi conhecer os anjos.

Era conhecer e amar a Deus.

Os anjos eram servidores de Deus.

E São Miguel, justamente por ser tão grande, aponta ainda mais radicalmente para Aquele a quem serve.

“Quem como Deus?”

Por isso, talvez o maior ensinamento de São Miguel para Santa Faustina não esteja simplesmente na proteção contra os demônios.

Está naquilo que a própria santa escreveu sobre ele:

a fidelidade à vontade de Deus.

São Miguel não ensina Faustina a confiar em sua própria força.

Ensina-a a permanecer debaixo da força de Deus.

Não a coloca no centro da batalha.

Recorda-lhe quem é o verdadeiro Senhor da batalha.

E talvez seja justamente por isso que sua aparição termina com duas palavras tão importantes:

“Não temas.”

Durante a Quaresma de São Miguel

Ao rezarmos a Quaresma de São Miguel, a vida de Santa Faustina pode nos ensinar que o combate espiritual não consiste em procurar o extraordinário.

O verdadeiro combate começa quando decidimos abandonar aquilo que nos afasta de Deus.

Quando escolhemos a vontade de Deus em lugar da nossa.

Quando resistimos ao pecado.

Quando recusamos o desespero.

Quando rezamos pela conversão dos pecadores.

Quando oferecemos nossos sofrimentos por amor.

Quando confiamos em Jesus mesmo sem compreender os caminhos pelos quais Ele nos conduz.

E, sobretudo, quando lembramos que não lutamos sozinhos.

Santa Faustina ouviu de São Miguel:

“Não temas.”

É uma palavra que continua atual.

Há momentos em que o pecado parece muito forte.

Há momentos em que a própria fraqueza parece maior que nossa capacidade de resistir.

Há momentos em que a sociedade parece afastar-se cada vez mais de Deus.

Há momentos em que carregamos dentro de nós batalhas que ninguém conhece.

Nesses momentos, o grito de São Miguel permanece como uma profissão de fé:

Quem como Deus?

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