Santa Catarina de Sena
Defensora da Igreja e dos "Meus Cristos"
Santa Catarina de Sena, manteve uma defesa teológica inabalável da instituição da Igreja e da dignidade sacramental de seus ministros. Para ela, a autoridade do Papa e dos sacerdotes não derivava de sua santidade pessoal, mas de sua função como distribuidores do "sangue de Cristo". Nas fontes de seus escritos e através da voz de Deus Pai em O Diálogo, a santa apresenta uma defesa vigorosa da hierarquia eclesiástica, estabelecendo que o respeito aos ministros é um dever sagrado e que sua perseguição constitui um pecado gravíssimo.
O Papa como o "Doce Cristo na Terra" e o Poder das Chaves
Catarina enfatizava que o Papa é o representante direto de Jesus e que a rebeldia contra ele é uma rebeldia contra o próprio Deus. Ela o descrevia como o "doce Cristo na terra".
A autoridade divina acima da conduta humana: Na sua famosa carta a Bernabó Visconti, um governante que se opunha ao Papado, ela escreve: "Deus veio em socorro das necessidades do homem... e pôs na Igreja o remédio da santa confissão, que é eficaz no vigor do sangue... Sem juízo é quem... age contra tal representante (o Papa), que detém as chaves do sangue de Cristo crucificado. Ainda que ele fosse um demônio encarnado, jamais devo levantar a cabeça contra ele. Sempre devo humilhar-me e implorar misericórdia. É a única maneira de receber ou participar dos frutos da redenção" (Carta 28 – Para Bernabó Visconti).
O Poder das Chaves e o Vigário de Cristo: Ela reforça que o poder espiritual do Papa é absoluto: "Com humildade, quero que comigo reclineis a cabeça... no peito do Cristo da terra, seu representante, com respeito pelo sangue de Cristo, cujas chaves possui. Para quem o papa abrir a porta, estará aberta; para quem ele fechar, fechada ficará. A ele pertencem o poder e a autoridade. Deles, ninguém o despojará, pois as recebeu do próprio Jesus" (Carta 28). Catarina descreve a Igreja como uma "despensa" do sangue de Cristo, cujo porteiro é o Papa: "Na terra, quem possui a chave do sangue é o Cristo-na-terra... Ele [Deus] estabeleceu como seu vigário o Cristo-na-terra, a quem deveis obedecer até a morte. Condena-se quem se exclui de tal obediência".
Os Ministros como "Meus Cristos" e a Intocabilidade dos Ungidos
Catarina defendia que os sacerdotes são "ungidos" e que qualquer agressão a eles, mesmo que merecida por seus pecados, é uma afronta que Deus não tolera. Ela enfatiza que os padres e bispos foram escolhidos para serem os distribuidores do "sol", ou seja, do corpo e sangue de Cristo nos sacramentos.
Zeladores do Sangue: Por causa dessa unção, eles são chamados de "meus cristos". "Os ministros são ungidos meus. A respeito deles diz a Escritura: 'Não toqueis nos meus cristos' (Sl 105,15)".
Anjos na Terra: "Coloquei-os como anjos na terra, e como tais devem viver... Nem os anjos possuem dignidade igual a esta concedida aos homens, na pessoa dos sacerdotes". Sobretudo os sacerdotes "devem ser anjos, não homens! E realmente o são, quando não recusam a iluminação divina. O sacerdote desempenha o ofício dos anjos!" (Carta 2).
Ofensa direta a Cristo: Em sua correspondência aos governantes de sua cidade natal, ela adverte: "Procurai acreditar e confiar nos servidores de Deus... Não vos ergais contra os servidores de Deus. Deus tolera tudo, menos as injúrias, as oposições e as calúnias contra os seus servidores. Ao ofendê-los, ofendeis a Cristo. E que péssima coisa seria isso para vós" (Carta 121 – Para os governantes de Sena).
A Proibição de Fazer Justiça e a Gravidade da Perseguição
Mesmo que os ministros vivam em pecado ou tenham defeitos, Catarina afirma categoricamente que os leigos não têm o direito de julgá-los ou puni-los, pois a autoridade deles vem de Deus. O julgamento do clero pertence apenas ao Criador e ao Seu representante.
Punição reservada a Deus: "Não façais justiça em assuntos que não vos dizem respeito. Nosso Salvador não o quer. Ele afirma que os pastores são seus ungidos. Deus não quer que vós e qualquer outra pessoa façais justiça. Ele a fará. ... Onde o juiz é mau e não faz justiça, nem a lei, nem a religião permitem que o substituais" (Carta 28). "Não quero que meus cristos sejam ofendidos. Somente eu devo puni-los, não outros".
Independência dos poderes civis: "Pela dignidade e autoridade confiada a meus ministros, retirei-os de qualquer sujeição aos poderes civis. A lei civil não tem poder legal para puni-los". "Malgrado seus pecados, quaisquer que sejam eles, não quero que o cristão leigo se ponha a persegui-los".
O Pecado Grave da Crítica: Catarina via na maledicência e na perseguição à Igreja um caminho direto para a perdição espiritual. "Todas as vezes que julgamos, caluniando ou condenando as ações, costumes ou palavras dos servidores de Deus — ai! ai! — temos que temer que o julgamento divino caia sobre nós! Efetivamente, Deus considera feito a si o que se faz aos seus servidores".
A maior das ofensas: A perseguição à Igreja é descrita como uma das ofensas mais graves contra Deus: "Se colocasses de um lado todos os demais pecados e este [a perseguição à Igreja], sozinho, do outro, o último ser-me-ia mais ofensivo". "Quem os punir cairá na maior infelicidade... Toda reverência feita a eles, na verdade, não atinge a eles, mas a mim".
Membros Apodrecidos e o Destino dos Perseguidores
Quem se separa da Igreja por rebeldia torna-se, para ela, um membro morto ou apodrecido.
Exclusão da Graça: "Quem não é batizado não participa dos benefícios da santa Igreja, mas como um membro apodrecido e separado da comunidade dos fiéis cristãos, passa da morte temporal para a morte eterna" (Carta 15 – Para o judeu Consílio). Da mesma forma, disse a Bernabó Visconti: "Outras mãos não vos ministrarão o sangue... Tornar-vos-íeis membro pútrido do corpo (místico) da Igreja" (Carta 28).
Condenação Eterna: Os perseguidores são descritos como "membros apodrecidos, separados da hierarquia eclesiástica" e que, se não se arrependerem, "irão para a condenação eterna". "Embora ajais com boa intenção, nem Deus nem a lei divina vos escusarão. Caireis na condenação eterna" (Carta 28).
Ação contra detratores: Ela exortava as autoridades a agirem contra os críticos da Igreja: "Fazei calar a língua dos caluniadores, castigai os detratores, não acrediteis no que dizem. Praticareis um ato de virtude e evitareis muitos escândalos" (Carta 121).
O Tesouro nos Vasos de Barro: A Diferença entre o Cargo e a Pessoa
Catarina era clara ao separar a dignidade do sacramento da miséria humana do padre. O valor dos sacramentos não diminui por causa do pecado do ministro.
O exemplo do tesouro: "Se por acaso uma pessoa suja e maltrapilha vos trouxer um tesouro... certamente não a desprezareis... O mesmo haveis de fazer... relativo aos meus ministros sem muita retidão que, sujos, cheios de vícios... trazem-vos grandes tesouros: os sacramentos da santa Igreja".
Reverência apesar dos defeitos: "A vossa reverência não deve diminuir diante de seus defeitos... tanto os bons como os maus ministros conservam a dignidade por desempenharem a mesma função".
Inveja camuflada de compaixão: Ela denunciava aqueles que criticavam os servos de Deus sob o pretexto de "compaixão": "Quando alguém perceber um defeito nos religiosos... apresente-os a Deus (na prece) com muita compaixão. ... Não devemos imitar os imperfeitos, que são cegos por causa do egoísmo e gostam de julgar os outros... Querem ditar leis ao Espírito Santo... Na realidade, mais do que compaixão, eles sentem profunda inveja" (Carta 39 – Para Tiago de Pontignano).
Defesa contra a hipocrisia: Em defesa do abade de Santo Antimo, ela repreendeu os governantes de Sena: "Vós vos queixais o dia todo dos padres e clérigos desonestos. Agora, encontrando um abade que procura corrigir-vos, vós impedis e vos lamentais" (Carta 121).
Conclusão
Em resumo, para Catarina, a Igreja é a "mãe nutriz" que alimenta as almas com o leite da graça. Por isso, a fidelidade ao Papa e o respeito pelos sacerdotes, independentemente de suas falhas pessoais, são requisitos indispensáveis para a vida da graça e para a salvação eterna. Quem critica ou ataca a hierarquia da Igreja comete um ato de orgulho e presunção, agindo como um "membro do diabo". Tais indivíduos devem ser combatidos não com violência, mas através da intercessão dos fiéis com "orações, suores e lágrimas".
Fontes Utilizadas
- BENTO XVI, Papa. Audiência Geral: Santa Catarina de Sena. Sala Paulo VI, 24 de novembro de 2010.
- CURTAYNE, Alice. Saint Catherine of Siena. Charlotte, NC: TAN Books, 2016.
- EMLING, Shelley. Setting the World on Fire: The Brief, Astonishing Life of St. Catherine of Siena. 1. ed. New York: St. Martin’s Press, 2016.
- FORBES, F. A. (Frances Alice). Saint Catherine of Siena: 1347-1380. Rockford, IL: TAN Books, 1998.
- LUONGO, F. Thomas. The Saintly Politics of Catherine of Siena. Ithaca and London: Cornell University Press, 2006.
- PAULO VI, Papa. Homilia na Proclamação de Santa Catarina de Sena como Doutora da Igreja. 4 de outubro de 1970.
- RAYMOND OF CAPUA, Blessed. The Life of St. Catherine of Siena. Tradução de Conleth Kearns, OP. Dublin & Wilmington: Dominican Publications and Michael Glazier, Inc., 1980 (Republicado por TAN Books em 2011).
- SENA, Santa Catarina de. As orações. Tradução de Frei João Alves Basílio, OP. 1. ed. São Paulo: Paulus, 2021. (E-book. Coleção Clássicos do Cristianismo).
- SENA, Santa Catarina de. Cartas completas. Tradução de Frei João Alves Basílio, OP. Santa Cruz do Rio Pardo (SP): Paulus, 2003 / São Paulo: Paulus, 2016.
- SENA, Santa Catarina de. O diálogo. Tradução de Frei João Alves Basílio, OP. 2. ed. São Paulo: Paulus, 2021. (E-book. Coleção Clássicos do Cristianismo).
- SENA, Santa Catarina de. Resumo de O Diálogo. São Paulo: Paulus.
- UNDSET, Sigrid. Catherine of Siena. Tradução de Kate Austin-Lund. San Francisco: Ignatius Press, 2009.