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O dia em que a morte morreu

O Domingo de Páscoa nos Doutores da Igreja: O dia em que a morte morreu
Alegria Pascal

O Domingo de Páscoa nos Doutores da Igreja
O dia em que a morte morreu

O alicerce da fé e o começo definitivo de uma nova criação

Existe uma alegria que a linguagem humana raramente consegue conter. Não é a alegria superficial de quem recebeu uma boa notícia, nem a euforia passageira de uma festa que logo termina. É uma alegria que tem a densidade do espanto — a alegria de quem estava certo de que tudo havia acabado e descobre, de repente, que tudo está apenas começando. É a alegria do Domingo de Páscoa.

Os Doutores da Igreja proclamaram esse domingo com uma intensidade que raramente se vê em outros temas da teologia. E há uma razão para isso: a Ressurreição não é apenas um artigo do Credo. É o alicerce sobre o qual todos os outros artigos repousam. Se Cristo não ressuscitou, como escreve Paulo, a nossa fé é vã. Mas se ressuscitou — então tudo muda. Não apenas o destino do corpo de Jesus. Tudo.

I
São João Crisóstomo, Homilia Catequética Pascal

«Cristo ressuscitou e nenhum morto permanece no sepulcro»

Nenhum texto da tradição cristã capturou a alegria pascal com maior força do que a homilia que São João Crisóstomo pregava na madrugada de Páscoa em Antioquia e depois em Constantinopla. Ela ainda hoje é proclamada em toda a tradição oriental no momento culminante da noite pascal, e tem o poder de fazer arrepiar a pele de quem a escuta pela primeira vez — e também de quem a escuta pela centésima.

O que Crisóstomo faz nessa homilia não é explicar a Ressurreição. É proclamá-la. E há uma diferença enorme entre as duas coisas. Explicar é manter uma distância segura do objeto. Proclamar é mergulhar dentro dele, é deixar que o fogo queime também quem fala. E Crisóstomo mergulha.

Ele personifica o Inferno — uma figura audaciosa e quase dramática — e o descreve como um tirano que se precipita para devorar a presa habitual e, desta vez, encontra não uma vítima indefesa, mas o próprio Deus disfarçado de mortal.

«Tomou um corpo e encontrou Deus. Tomou a terra e deparou-se com o Céu. A imagem é de uma ironia cósmica: a morte, que sempre havia vencido, desfere o seu golpe definitivo contra o único ser sobre o qual o golpe não tem poder — e é destruída pelo próprio ato que deveria ser a sua maior vitória.»

E então vem a linha que resume tudo: Cristo ressuscitou, e nenhum morto permanece no sepulcro. Não é uma afirmação sobre Cristo apenas. É uma afirmação sobre toda a humanidade. A Ressurreição não é um evento privado, uma espécie de milagre pessoal concedido ao Filho de Deus. É um evento cósmico que altera retroativamente a condição de cada ser humano que já viveu, vive ou viverá. O sepulcro mudou de natureza. Já não é um lugar de permanência, mas de passagem.

Crisóstomo sabia que essa proclamação precisava ser feita com uma alegria que correspondesse à magnitude do evento. Por isso a sua homilia não é uma meditação tranquila. É um grito de vitória. O bispo sobe ao púlpito às três da manhã, a assembleia carregando velas acesas na escuridão, e a voz ergue-se sobre o silêncio como o próprio anúncio do anjo às mulheres: Não está aqui. Ressuscitou.

II
Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q. 54

«A qualidade alterou-se, mas a natureza não deixou de existir»

Depois da proclamação, vem a pergunta inevitável. Que corpo é esse que ressuscitou? É o mesmo que foi sepultado? Como pode um corpo atravessar paredes fechadas e ao mesmo tempo comer peixe à beira do lago? Como pode ser tocado por Tomé e ao mesmo tempo não ser reconhecido pelos discípulos de Emaús?

Santo Tomás de Aquino era o tipo de inteligência que não recuava diante de perguntas difíceis. Pelo contrário: era precisamente nas perguntas difíceis que ele encontrava o prazer mais puro. E a questão do corpo ressuscitado de Cristo é uma das mais delicadas da teologia, porque exige que se fale de algo para o qual a linguagem humana não tem palavras completamente adequadas — uma realidade que está além da experiência comum, mas que ao mesmo tempo é profundamente corporal, profundamente concreta.

A formulação que Tomás encontra é de uma precisão que ainda hoje surpreende: «A qualidade alterou-se, mas a natureza não deixou de existir.»

O que isto quer dizer é que o corpo de Cristo ressuscitado é genuinamente o mesmo corpo que nasceu de Maria, que cansou na viagem por Samaria, que foi pregado na cruz. Não é um corpo diferente, não é uma aparição, não é uma metáfora espiritual. É o mesmo corpo — mas transfigurado. Elevado a uma condição que não conhece mais a corruptibilidade, a passibilidade, os limites que a matéria impõe ao espírito.

E as chagas? Tomás tem uma resposta de rara beleza: Cristo conservou as marcas dos cravos e da lança não como defeito residual, não como sequela de um trauma que não cicatrizou completamente. Conservou-as como troféus. Como o guerreiro que vence uma batalha decisiva e guarda as marcas desse dia não por masoquismo, mas porque aquelas marcas dizem quem ele é e o que conquistou. As chagas de Cristo ressuscitado são a memória gloriosa do amor que chegou até o fim.

III
Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, III, q. 53, a. 1

«A Paixão remove os males; a Ressurreição inaugura os bens»

Há uma distinção que Tomás formula com uma brevidade quase brutal, e que tem consequências enormes para a forma como entendemos a fé cristã. Ele diz que a Paixão de Cristo operou a nossa salvação quanto à remoção dos males; mas a Ressurreição, quanto ao começo dos bens.

Esta distinção desfaz um equívoco muito comum. Há uma tendência, especialmente em certas formas de piedade cristã, de concentrar toda a atenção na Cruz — no sofrimento, no sacrifício, na expiação — e de tratar a Ressurreição como uma espécie de recompensa ou apêndice feliz. Como se o trabalho real tivesse sido feito na Sexta-feira Santa e o Domingo de Páscoa fosse o epílogo consolador.

Tomás recusa essa leitura. A Cruz faz algo decisivo e insubstituível: remove o pecado, desfaz a dívida, liberta o ser humano da escravidão que o aprisionava. Mas libertação não é o mesmo que plenitude. Remover o mal não é ainda instaurar o bem. Um prisioneiro libertado ainda não é um filho na casa do pai. E é precisamente isso o que a Ressurreição acrescenta: não apenas o fim do mal, mas o começo positivo de uma vida nova. Não a cura da ferida apenas, mas a saúde transbordante. Não a saída do sepulcro apenas, mas a entrada em algo que os olhos humanos ainda não viram completamente.

São Leão Magno expressou o mesmo pensamento: «O que Cristo demonstrou na Ressurreição foi que a fraqueza se transformou em poder, a mortalidade em eternidade, a ignomínia em glória.»

Leão era um homem de governo — foi ele quem negociou com Átila e com Genserico, quem guiou a Igreja em tempos de colapso imperial — e tinha um senso aguçado do que é uma verdadeira virada histórica. Para ele, a Ressurreição era exatamente isso: não uma correção marginal no curso dos eventos, mas uma inversão total da lógica do mundo.

E São Pedro Crisólogo, bispo de Ravena no século V, que tinha o dom de comprimir verdades enormes em imagens breves, colocou-o de forma ainda mais dramática: a morte é julgada — a morte que se precipitou contra o seu Juiz. O Juiz morreu. E ao morrer, transformou o tribunal: agora é a morte que está no banco dos réus.

IV
Santo Atanásio, Sobre a Encarnação do Verbo, §54

«Ele fez-se homem para que nós fôssemos feitos deuses»

Existe uma frase de Santo Atanásio que a teologia cristã jamais conseguiu superar em concisão e profundidade. Ele a escreveu no século IV, numa época em que a fé na divindade de Cristo estava sendo atacada por dentro da própria Igreja, e ela continua a ser, dezassete séculos depois, o enunciado mais condensado do que a Ressurreição significa para o ser humano: Ele fez-se homem para que nós fôssemos feitos deuses.

Não se trata de panteísmo. Atanásio sabia melhor do que ninguém onde estão os limites entre a criatura e o Criador. Trata-se de algo que a teologia chama de theosis — divinização —, a participação real e não meramente metafórica na vida de Deus. O que a Ressurreição revela é que o destino do ser humano não é a mera sobrevivência depois da morte, não é um paraíso entendido como gozo eterno de bens criados. É a comunhão com o próprio Deus, a participação na sua vida, na sua luz, no seu amor — pelo Cristo ressuscitado que é o caminho e a porta.

Santo Ireneu de Lião, precursor desta intuição, havia dito antes de Atanásio: «Ele tornou-se o que nós somos, para que nos fizesse ser o que Ele próprio é.»

A Encarnação e a Ressurreição formam um único arco. Deus desceu até a nossa condição — até a morte — para que nós pudéssemos ascender até à sua condição — até a vida que não conhece fim.

É por isso que a Ressurreição não é apenas uma boa notícia sobre o que aconteceu a Jesus no primeiro dia da semana. É uma boa notícia sobre o que está acontecendo com cada ser humano que entra nessa vida nova pelo batismo, e sobre o que acontecerá com cada corpo humano que um dia repousou na terra. A semente que é lançada no solo não perece: germina. E aquilo que germina não é algo diferente da semente — é a semente ela mesma, mas transfigurada em algo que a semente nunca poderia ter sido sem passar pela terra.

V
São Gregório Magno, Homilias sobre os Evangelhos, 21

«Galileia significa passagem»

Gregório Magno tinha um talento especial para encontrar na letra dos textos sagrados dimensões que outros não haviam visto. E quando o evangelho diz que o anjo instrui as mulheres a dizer aos discípulos que eles verão Jesus na Galileia — pois para lá ele vai adiante deles —, Gregório para diante dessa palavra e pergunta: o que significa Galileia?

A resposta que ele encontra na tradição é ao mesmo tempo simples e vertiginosa: Galileia significa passagem. E então Gregório abre a imagem como se abrisse uma porta: o Senhor passou do sofrimento para a Ressurreição, da morte para a vida, do castigo para a glória, da mortalidade para a imortalidade. E é na Galileia — no lugar da passagem — que os discípulos o verão. Porque é sempre no lugar da passagem que Cristo é visto.

O que Gregório está dizendo, com uma sutileza que merece atenção, é que a Páscoa não é um evento que se contempla de longe. É um evento no qual se participa ou não se vê. Os discípulos veem o Ressuscitado na Galileia — no lugar da travessia — porque eles próprios estão atravessando. Saíram do Sábado do luto e estão entrando no Domingo da alegria. E é precisamente nessa travessia que Cristo aparece.

Há aqui uma lição espiritual que Gregório não deixa implícita: «Veremos a glória da Ressurreição se passarmos dos caminhos do pecado às alturas da vida santa.»

A Ressurreição não é apenas um evento histórico que aconteceu uma vez e que a fé testemunha à distância. É uma realidade que se torna visível à medida que a vida do cristão se transforma, que a passagem acontece também dentro de cada pessoa — do velho ao novo, da escravidão à liberdade, do medo ao amor.

São Bernardo de Claraval, o grande abade medieval que sabia unir a teologia mais rigorosa à contemplação mais ardente, dizia que a imagem do Cristo ressuscitado, quando se apresenta à alma em oração, tem um efeito imediato e quase medicinal: expulsa os vícios carnais, afugenta as tentações, acalma os desejos. Não porque seja uma técnica de autodomínio. Mas porque o contato com o que é verdadeiramente belo e verdadeiramente vivo torna automaticamente sem atração o que é feio e morto. Quem contempla o Ressuscitado perde o gosto pelas sombras.

VI
Santo Atanásio, Sobre a Encarnação do Verbo, §27

«A morte tornou-se como um tirano completamente derrotado»

Atanásio tinha uma maneira de escrever que ainda hoje tem o poder de sacudir. Quando ele descreve a vitória de Cristo sobre a morte, não usa a linguagem abstrata do teólogo que cataloga conceitos. Usa a linguagem viva de quem está descrevendo uma batalha que ainda está acontecendo — porque para Atanásio, ela está.

A imagem do tirano vencido é de uma força pictórica extraordinária. Um tirano que reinou por séculos, que nunca havia perdido, que parecia absolutamente invencível — preso, acorrentado, exposto ao escárnio público dos que antes o temiam. E Atanásio observa algo que ainda hoje é verificável empiricamente: antes da Ressurreição, até os mais santos dos homens temiam a morte. Depois dela, os cristãos começaram a preferir morrer a renegar a fé. Algo mudou objetivamente no mundo, não apenas nas cabeças das pessoas.

São João Crisóstomo levou essa observação ainda mais longe na sua homilia. Há uma passagem menos conhecida do que o grito triunfal final, mas talvez ainda mais profunda: ele descreve o Inferno como uma potência que tomou o corpo de Cristo esperando a presa habitual — e encontrou algo para o qual não estava preparado. Tomou terra e encontrou Céu. Tomou o visível e tropeçou no invisível. É uma teologia que só pode ser expressa como paradoxo, porque o evento que descreve é, por definição, sem precedente.

«Cristo não contorna a morte, não a ignora, não a finge inexistente. Desce até ao fundo dela — e sobe de dentro para fora, trazendo na mão as chaves que ela nunca deveria ter tido.»

O que os Doutores estão todos a dizer, cada um com a sua linguagem e o seu temperamento, é que a Ressurreição não é uma superação da morte no sentido em que o sol supera a noite — simplesmente substituindo-a. É uma superação mais radical: é a morte sendo usada como instrumento da sua própria destruição.

VII
São João da Cruz, Chama de Amor Viva, Canção 1

«Matando, a morte em vida a transformaste»

São João da Cruz não escreveu tratados sobre a Ressurreição no sentido acadêmico do termo. Mas toda a sua obra é uma meditação sobre o processo pelo qual a alma passa da morte para a vida, do vazio para a plenitude, da noite para a manhã. E quando chega ao ponto mais alto da sua experiência mística — aquele instante em que o amor de Deus toca a alma na sua profundeza mais íntima —, a imagem que encontra é pascal: matando, a morte em vida a transformaste.

«O grão de trigo que não cai na terra e não morre permanece só. Mas se morre, dá muito fruto.»

O amor de Deus opera como faz Cristo na Ressurreição: não evitando a morte, mas atravessando-a. A transformação não vem apesar da morte, mas através dela. João da Cruz viveu isso na carne — a prisão em Toledo, o isolamento, a incompreensão dos seus superiores — e escreveu a partir dessa experiência de morte interior que se transfigurou em vida.

Há aqui uma intuição que percorre toda a tradição dos Doutores, de formas diferentes: a Ressurreição não é o cancelamento do sofrimento, mas a sua transfiguração. As chagas permanecem no corpo de Cristo glorificado — mas como troféus, não como feridas. A cruz não desaparece da vida do cristão depois da Páscoa — mas muda de sentido, porque agora sabe-se para onde aponta.

Conclusão: o domingo que mudou tudo

Os Doutores da Igreja, vindos de séculos, temperamentos e contextos tão diferentes, convergem numa certeza que nenhum deles conseguiu formular completamente, mas que todos tentaram: a Ressurreição de Cristo é o evento mais real que alguma vez aconteceu. Mais real do que a nossa experiência quotidiana, que é frequentemente superficial. Mais real do que a morte, que parece definitiva mas não é. Mais real do que o sofrimento, que parece a última palavra mas não é.

Crisóstomo proclama isso com o grito triunfal da noite pascal. Atanásio argumenta-o com a lucidez do polemista que sabe que a fé inteira depende desse ponto. Tomás articula-o com a precisão do filósofo que sabe que uma verdade tão grande exige uma inteligência que esteja à sua altura. Leão e Gregório pregam-no às assembleias que precisam de deixar essa verdade descer da cabeça para o coração. João da Cruz vive-o na passagem pela noite mais escura.

E todos eles, de certa forma, estão simplesmente repetindo o que o anjo disse às mulheres na madrugada do primeiro dia: Não está aqui. Ressuscitou. O sepulcro está vazio. O lugar onde o mundo esperava encontrar um cadáver está vazio. E esse vazio — esse espaço que ficou onde a morte deveria ter vencido — é o lugar mais eloquente de toda a história: o silêncio de um túmulo que não conseguiu cumprir a sua função.

«Cristo ressuscitou. E com Ele, a humanidade inteira deixou de estar onde estava.»

Aleluia.

Fontes e Referências

As citações e referências deste artigo baseiam-se nos seguintes textos:

  • São João Crisóstomo — Homilia Catequética Pascal (Homilia Catechetica in Pascha), Patrologia Graeca 59, 721–724
  • Santo Atanásio de Alexandria — Sobre a Encarnação do Verbo (De Incarnatione Verbi Dei), §§ 21, 27 e 54; Patrologia Graeca 25
  • Santo Ireneu de Lião — Contra as Heresias (Adversus Haereses), V, Prefácio; Patrologia Graeca 7; Sources Chrétiennes 153
  • São Leão Magno — Sermões Pascais (Sermones de Resurrectione Domini), Sermões 71 e 72; Patrologia Latina 54; Corpus Christianorum Latinorum 138A
  • São Pedro Crisólogo — Sermões sobre a Ressurreição (Sermones de Resurrectione Domini), Sermões 74 e 75; Corpus Christianorum Latinorum 24A
  • São Gregório Magno — Homilias sobre os Evangelhos (Homiliae in Evangelia), Homilia 21; Corpus Christianorum Latinorum 141
  • São Bernardo de Claraval — Sermões sobre o Cântico dos Cânticos (Sermones super Cantica Canticorum), Sermão 20; Sancti Bernardi Opera, ed. Leclercq–Rochais
  • Santo Tomás de Aquino — Suma Teológica (Summa Theologiae), III, questões 53–56; Edição Leonina
  • São João da Cruz — Chama de Amor Viva (Llama de Amor Viva), Canção 1; ed. crítica P. Silverio de Santa Teresa

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