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São John Henry Newman

São John Henry Newman

1801-1890
São John Henry Newman nasceu em Londres em 1801. Foi clérigo anglicano e líder do Movimento de Oxford antes de converter-se ao catolicismo em 1845. Tornou-se padre oratoriano e fundou o Oratório de Birmingham. Em 1879, foi nomeado cardeal pelo Papa Leão XIII. Faleceu em 1890, deixando um legado duradouro na teologia e educação. Foi beatificado pelo Papa Bento XVI em 2010.
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Frases de São John Henry Newman

"A própria razão pela qual me tornei católico foi porque a atual Igreja Católica Romana é a única Igreja que é semelhante, e muito semelhante, à Igreja primitiva... É quase como uma fotografia da Igreja primitiva."
(Newman, John Henry. Certain Difficulties Felt by Anglicans in Catholic Teaching Considered. Volume I. Londres: Longmans, Green, and Co., 1908, p. 367)
"Há a entrada real d'Ele mesmo, alma e corpo, e divindade, na alma e no corpo de todo adorador que vem a Ele para receber o dom, um privilégio mais íntimo do que se tivéssemos vivido com Ele durante a Sua longa passagem pela terra."
(Newman, John Henry. Parochial and Plain Sermons. Volume VI. Londres: Longmans, Green, and Co., 1907, p. 151)
"Depois de provar a alegria tremenda de adorar a Deus no Seu templo, quão indescritivelmente fria é a ideia de um templo sem essa Presença Divina!"
(Newman, John Henry. The Letters and Diaries of John Henry Newman. Volume XI. Londres: Thomas Nelson and Sons, 1961, p. 131)
"Nós recebemos através da Tradição tanto a própria Bíblia quanto a doutrina de que ela é divinamente inspirada. Portanto, ridicularizar a Tradição como algo irracional ou indigno de confiança em si mesmo é enfraquecer o fundamento de nossa própria fé na Escritura."
(Newman, John Henry. The Via Media of the Anglican Church. Londres: Longmans, Green, and Co., 1901.)
"Com os cristãos, uma visão poética das coisas é um dever. Somos convidados a colorir todas as coisas com matizes de fé, para ver um significado divino em cada evento."
(Newman, John Henry. Essays Critical and Historical. Londres: Basil Montagu Pickering, 1871.)
"A ternura maternal de Nossa Senhora foi além do alívio proporcionado a Ele. As orações de Maria enviaram Verônica, assim como Simão — Simão para fazer o trabalho de um homem, Verônica para desempenhar o papel de uma mulher."
(Newman, John Henry. Meditações para a Via Sacra e Paixão do Senhor. Londrina: Editora Padre Pio, 2024.)
"Ó Senhor Jesus Cristo, na Cruz dissestes: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem (Lc 23, 34). Ó meu Deus, esta é certamente a condição de vastas multidões entre nós agora; elas não sabem o que poderiam saber, ou esqueceram o que uma vez souberam."
(Newman, John Henry. Meditações para a Via Sacra e Paixão do Senhor. Londrina: Editora Padre Pio, 2024.)
"A profunda e incrível alegria que a participação na Igreja Católica transmite é algo diferente em espécie de qualquer paz que eu tive na Igreja Anglicana."
(Newman, John Henry. The Letters and Diaries of John Henry Newman. Londres: Thomas Nelson and Sons, 1961–1972.)

Biografia de São John Henry Newman

 

A Alvorada de uma Alma Eleita

 

John Henry Newman nasceu em Londres, no dia 21 de fevereiro de 1801, em um lar que, embora marcado pela religião bíblica tradicional, mal poderia prever a magnitude da santidade que ali florescia. Desde os seus primeiros anos, a mão da Providência parecia traçar sinais misteriosos em sua vida, como se o Céu desejasse marcar o seu futuro apóstolo. Aos dez anos de idade, enquanto estudava latim, o pequeno John Henry desenhou espontaneamente em seu caderno uma cruz sólida e um conjunto de contas que assemelhava-se perfeitamente a um rosário, embora nunca tivesse tido contato com tal devoção católica.

Outro sinal da sensibilidade sobrenatural que o acompanhava era o hábito instintivo de benzer-se ao entrar em lugares escuros, uma proteção angélica cuja origem ele mesmo não sabia explicar senão como uma inspiração externa. Ele foi criado em um ambiente de profunda imersão nas Escrituras, tomando “grande deleite” na leitura da Bíblia desde a infância, o que preparou o solo de seu coração para as futuras sementes do dogma. Essa fundação bíblica, cuidada por sua mãe, foi o primeiro degrau da escada de santidade pela qual ele ascenderia.

 

 A “Primeira Conversão” e o Pacto com o Criador

 

O ano de 1816 foi o grande divisor de águas em sua alma, um tempo de crise que se tornou um tempo de graça extraordinária. Em meio a uma grave enfermidade física e ao colapso financeiro da família, Newman experimentou o que chamou de sua “primeira conversão”. Foi um toque místico que o fez perceber, com uma clareza luminosa e inabalável, a existência de apenas dois seres no universo: ele mesmo e seu Criador. Essa experiência não foi meramente intelectual, mas uma apreensão direta de um Poder Governante que preencheu o jovem de temor e reverência.

Nesse período de fervor, ele recebeu as “impressões de dogma” que nunca seriam apagadas, reconhecendo que a religião baseada apenas no sentimento era uma “zombaria”. Foi também neste momento que ele sentiu o chamado sobrenatural ao celibato, uma premonição de que Deus o reservava inteiramente para um serviço bem definido e sagrado. Ele acreditava piamente que sua alma estava nas mãos de Deus e que ele havia sido “eleito para a glória eterna”, uma convicção que o isolou do mundo material e o focou nas realidades invisíveis.

 

 Oxford: O Crisol da Sabedoria e a Purificação pelo Luto

 

Ao ingressar no Trinity College, Oxford, Newman destacou-se por sua disciplina quase monástica, fugindo da devassidão e do álcool que consumiam muitos de seus pares. Embora tenha enfrentado o fracasso humano em seus exames de bacharelado devido ao esgotamento físico, sua fé não esmoreceu. Sua eleição como Fellow do Oriel College em 1822 foi celebrada por ele como uma “misericórdia de Deus”, o dia mais memorável que o elevou da obscuridade à dignidade.

Contudo, a verdadeira purificação de seu espírito ocorreu através do sofrimento. Em 1828, a morte súbita de sua amada irmã Mary, aos 19 anos, feriu profundamente seu coração, mas também o curou do incipiente orgulho intelectual. Através desse luto, ele compreendeu que o progresso moral era infinitamente superior à excelência acadêmica. Ele passou a viver sob o lema de que a santidade é mais importante que a paz e que o crescimento é a única evidência da vida divina na alma.

 

O Peregrino da Sicília e a Missão Profética

 

Durante sua viagem pelo Mediterrâneo em 1832, Newman enfrentou sua “noite escura” física e espiritual. Na Sicília, foi acometido por uma febre mortal que o levou às portas da eternidade. Em meio ao delírio e à fraqueza extrema, seu espírito manifestou uma resistência sobrenatural; ele clamou ao seu criado: “Não morrerei, pois não pequei contra a luz!” e “Tenho uma obra a fazer na Inglaterra”.

Ao recuperar-se, como se tivesse renascido, ele compôs no mar o hino Lead, Kindly Light, expressando sua entrega absoluta ao passo a passo da Providência. Ele voltou para sua terra natal não como um homem comum, mas como um profeta incumbido de despertar a Igreja de Inglaterra de sua letargia liberal. Sua voz no púlpito de St. Mary começou a ecoar como um som vindo de outro mundo, e cada sermão era descrito pelos ouvintes como uma experiência mística profunda.

 

O Movimento de Oxford e a Busca pela Esposa de Cristo

 

Newman tornou-se o líder do Movimento de Oxford, lutando para restaurar a santidade e a apostolicidade na Igreja Anglicana. No entanto, sua busca apaixonada pela Verdade o levou a um espelho histórico: ao estudar os monofisitas e os arianos, ele viu o reflexo da Igreja de Roma como a única detentora fiel da tradição primitiva. Em 1839, as palavras de Santo Agostinho, Securus judicat orbis terrarum, ressoaram em sua alma como um repique de sinos celestiais, pulverizando sua teoria da via média.

Vivendo em quase reclusão em Littlemore, em uma habitação simples que outrora fora um estábulo, Newman passou anos em jejum e oração, pedindo por luz. Ele percebeu que a Igreja Católica não era um sistema estático, mas um organismo vivo cujo dogma se desenvolvia organicamente sob a proteção da autoridade divina. Em 9 de outubro de 1845, sob uma chuva torrencial, a graça completou sua obra: o Beato Domingos Barberi, um “homem simples e santo”, recebeu Newman no único rebanho de Cristo.

 

O Apóstolo de São Filipe e o Cardeal da Verdade

 

Como sacerdote católico, Newman encontrou sua vocação definitiva no Oratório de São Filipe Néri, o “santo da alegria”. Ele amava Birmingham não por sua beleza, mas por seus pobres e operários, a quem servia com ternura maternal e firmeza de pai de almas. Mesmo quando enfrentou incompreensões, calúnias em tribunais e silêncios impostos por autoridades humanas, ele manteve a paz de quem está “no porto após um mar revolto”.

Seu lema cardinalício, Cor ad cor loquitur (“O coração fala ao coração”), resumia sua mística: a oração como um diálogo íntimo e silencioso diante do Tabernáculo. Quando o Papa Leão XIII o elevou ao cardinalato em 1879, foi a vindicação divina de sua fidelidade; o mundo inteiro regozijou-se com a elevação daquele que sempre colocou a consciência acima de todos os tronos.

 

O Trânsito Celestial e o Brilho dos Milagres

 

São John Henry Newman partiu para a visão beatífica em 11 de agosto de 1890. Milhares de pessoas, de todas as fés, alinharam-se nas ruas de Birmingham para ver passar o corpo daquele que consideravam um santo vivo. Em seu túmulo, as palavras que ele mesmo escolheu ecoam sua vitória: Ex umbris et imaginibus in veritatem — “Das sombras e imagens para a Verdade”.

A santidade de Newman foi selada por milagres confirmados pela Igreja, como a cura instantânea do Diácono Jack Sullivan, que sofria de uma patologia espinal paralisante e foi curado após pedir a intercessão do cardeal. Outro fato notável foi que, ao ser exumado em 2008, seu corpo havia se transformado completamente em pó, uma “cerimônia da natureza” que ele mesmo parecia ter antecipado em sua humildade. Beatificado pelo Papa Bento XVI em 2010, Newman hoje brilha como o mestre da consciência e o guia seguro para aqueles que buscam a Luz Gentil em meio à névoa do mundo.

 


Referências bibliográficas

 

  • Newman, John Henry. Apologia pro Vita Sua: being a history of his religious opinions. London – New York: Longmans, Green, and Co., 1891.
  • Paiva, Fernando Maio de. Consciência moral em John Henry Newman. Covilhã: LUSOSOFIA: PRESS, 2013.
  • Connolly, John R. John Henry Newman: A View of Catholic Faith for the New Millennium. Lanham: Rowman & Littlefield Publishers, 2005.
  • Newman, John Henry. Meditations and Devotions of the Late Cardinal Newman. London: Longmans, Green, and Co., 1893.
  • Ford, John T. John Henry Newman: Spiritual Writings. New York: Orbis Books, 2012.
  • Ker, Ian. Newman on Vatican II. Oxford: Oxford University Press, 2014.
  • Newman, John Henry. The Letters and Diaries of John Henry Newman. London: Thomas Nelson and Sons / Oxford: Clarendon Press, 1961–2008.
  • Dean, Kevin & Gail. Straight from the heart: thoughts of John Henry Newman. Chicago: Loyola University Press, 1990.
  • Harrold, Charles Frederick. John Henry Cardinal Newman: Sermons and Discourses (1839-57). Longmans, Green and Co., 1949.
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