Frases de Santo Antônio de Pádua
"A nossa alma é dita "fruto do parto do Senhor", isto é, de sua dor, porque, como uma mulher parturiente, gerou-a nas dores da paixão."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Prólogo, p. 45.)
"A caridade é mais vasta do que o oceano e sua dimensão dilata o estreito coração do pecador."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do Domingo da Septuagésima, p. 47.)
"O matrimônio é em si mesmo um bem, todavia, comporta dificuldades e perigos por causa da preocupação com as coisas do mundo."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do II domingo depois de Pentecostes, p. 719.)
"O que há de mais brilhante e de mais luminoso do que a alma do homem glorificado?"
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão da Páscoa do Senhor (1), p. 362.)
"Ao som das palavras "Este é o meu corpo", o pão se transforma, transubstancia-se, torna-se o corpo de Cristo."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão da Ceia do Senhor, p. 332.)
"Quantos Judas Iscariotes, existem hoje, que pela recompensa de alguma vantagem temporal vendem a verdade, traem o próximo com o beijo da adulação, e assim, no fim, se enforcam no laço da condenação eterna!""
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do Domingo da Quinquagésima, p. 122.)
"A confissão deve ser inabitável, isto é, privada, secreta, escondida a todo conhecimento de homem e fechada unicamente no tesouro da memória do confessor."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do I domingo da Quaresma (2), p. 147.)
"O corpo corruptível torna a alma pesada, pois o nosso corpo [...] quanto mais é nutrido com delicadeza [...] tanto mais rapidamente perde as forças."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do I domingo da Quaresma (2), p. 166.)
"Como uma mãe amorosa toma na sua mão a mão da criança insegura, assim o Senhor toma a mão do humilde penitente."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Prólogo, p. 39.)
"A lembrança do crucificado crucifica os vícios, pois na cruz acumular-se-ão numerosos testemunhos de nossa redenção."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do Domingo da Quinquagésima, p. 113.)
"O diabo, como um lobo, mata tudo aquilo que amassa com o pé da soberba."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do II domingo depois de Pentecostes, p. 411.)
"Espada de três pontas é a língua do caluniador; de fato, com um só golpe, mata três: isto é, o caluniador, quem o ouve e o caluniado."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do I domingo depois de Pentecostes, p. 685.)
"O teu céu seja o pobre; nele repõe o teu tesouro, a fim de que nele esteja sempre o teu coração."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão de Início do Jejum, p. 137.)
"A esperança é a virtude que se lança para frente, isto é, que aspira aos bens futuros."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do III domingo depois de Pentecostes, p. 597.)
"O Espírito Santo é chamado orvalho de luz: orvalho porque refresca e consola, luz porque ilumina as coisas que se ignoram."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do VI domingo depois da Páscoa, p. 554.)
"Deu o ouro puríssimo, isto é, perfeitamente purificado de toda a imundície e de toda a escória da maldade e da heresia."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Prólogo, p. 40.)
"A veste da alma é a fé, que é de ouro se for iluminada pela luz da caridade."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do II domingo depois de Pentecostes, p. 813.)
"A infusão da graça [...] ensina o desprezo do mundo, o humilde sentimento de si, a busca da felicidade celeste."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do V domingo depois da Páscoa, p. 525.)
"A humildade deve nascer antes de todas as outras virtudes, porque ela é a mãe e a raiz do edifício da santidade."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do III domingo depois da Páscoa, p. 479.)
"Construir a sua Igreja, na qual fosse conservada uma semente não corruptível, mas destinada a durar nos séculos dos séculos."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do Domingo da Sexagésima, p. 83.)
"Depois de haver bebido neste mundo o vinho do prazer, beberás no outro o vinagre do inferno."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do III domingo depois da Páscoa, p. 441.)
"Com o jejum freamos a arrogância da carne e com a oração purificamos o coração dos pensamentos maus."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do Domingo da Septuagésima, p. 58.)
"Recorda-te dele sobretudo nos dias de tua juventude, que é a idade mais inclinada ao pecado, mas também a mais adaptada a fazer penitência."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do III domingo depois da Páscoa, p. 982.)
"No juízo haverá estes três momentos: o interrogatório dos pecadores, a acusação de todo o bem não feito, a execução da sentença."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do XIII domingo depois de Pentecostes, p. 1443.)
"Sobe ao tribunal da tua mente: a razão seja o juiz, a consciência seja o acusador, o temor seja o carrasco, a dor seja o tormento e as obras sirvam de testemunhas."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do III domingo depois de Pentecostes, p. 1356.)
"O homem, reduzido à miséria, quando estava na honra não entendeu e tornou-se semelhante aos animais."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do Domingo da Septuagésima, p. 44.)
"Misericórdia significa "que rega o mísero coração" (miserum rigans cor)."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão de Início do Jejum, p. 137.)
"Passam os dias da salvação e ninguém se preocupa de perder um dia que nunca mais lhe será restituído."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do I domingo da Quaresma (2), p. 163.)
"Uma torre inexpugnável é o nome de Nossa Senhora [...] o nome de Maria é júbilo ao coração, mel para a boca, melodia para o ouvido."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do III domingo da Quaresma, p. 272.)
"A obediência atrai para si todas as virtudes, e tendo-as atraído as guarda."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do III domingo depois da Páscoa, p. 463.)
"Os primeiros dardos da luxúria são os olhos."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do II domingo da Quaresma (2), p. 201.)
"A oração comove a Deus, as lágrimas o obrigam. A lágrima unge, a oração punge."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do XV domingo depois de Pentecostes, p. 1210.)
"O justo deve matar o pecado mortal com a confissão e escondê-lo, depois, com a prática da penitência."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do Domingo da Septuagésima, p. 228.)
"O penitente deve renunciar a si mesmo e, de bom grado, obedecer às ordens de seu confessor, de seu superior."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do III domingo da Quaresma, p. 225.)
"O jardim é a alma na qual Cristo, como um jardineiro, planta os sacramentos da fé."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Prólogo, p. 20.)
"No seio puríssimo da Virgem, por obra do verdadeiro José, foi recolocado o trigo para que não morresse de fome todo o Egito."
(Antônio, Santo. *Sermões*. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis, RJ: Vozes, 2019. Sermão do III domingo da Quaresma, p. 269.)
"O mundo, quão pesado te tornaste para mim! Teu poder é apenas o de um junco frágil, tuas riquezas são como uma lufada de fumaça, e teus prazeres como uma rocha traiçoeira onde a virtude naufraga."
(O’BRIEN, Isidore, O.F.M. Saint Anthony of Padua: Life of the Wonder-Worker. Boston, Massachusetts: St. Paul Editions, 1976)
"Convém que o pregador leve na terra uma vida celestial, de acordo com as verdades que é encarregado de anunciar ao povo. Sua conversa deve ser apenas sobre coisas sagradas, e seus esforços devem tender a um único fim: a salvação das almas."
(O’BRIEN, Isidore, O.F.M. Saint Anthony of Padua: Life of the Wonder-Worker. Boston, Massachusetts: St. Paul Editions, 1976)
"A oração deve ser o seu maior deleite e a lembrança da amarga Paixão do Filho de Deus deve acompanhá-lo sempre, seja na alegria ou na adversidade."
(O’BRIEN, Isidore, O.F.M. Saint Anthony of Padua: Life of the Wonder-Worker. Boston, Massachusetts: St. Paul Editions, 1976)
"Deixai as cidades, isto é, os pecados e vícios que desonram, o tumulto que impede a alma de elevar-se a Deus e, muitas vezes, de pensar nEle."
(O’BRIEN, Isidore, O.F.M. Saint Anthony of Padua: Life of the Wonder-Worker. Boston, Massachusetts: St. Paul Editions, 1976)
"Estabeleça-se nEle: que Ele seja o tema constante de seus pensamentos, o objeto de seus afetos."
(O’BRIEN, Isidore, O.F.M. Saint Anthony of Padua: Life of the Wonder-Worker. Boston, Massachusetts: St. Paul Editions, 1976)
"Se Jesus Cristo é a rocha, o buraco da rocha no qual a alma religiosa deve buscar abrigo e fazer sua morada é a ferida no lado de Jesus Cristo."
(O’BRIEN, Isidore, O.F.M. Saint Anthony of Padua: Life of the Wonder-Worker. Boston, Massachusetts: St. Paul Editions, 1976)
"As virtudes praticadas por teu Salvador: humildade, mansidão, pobreza, penitência, paciência e mortificação. O mundo as despreza como inúteis pedaços de palha; no entanto, elas serão para ti o material para construir tua morada para sempre."
(O’BRIEN, Isidore, O.F.M. Saint Anthony of Padua: Life of the Wonder-Worker. Boston, Massachusetts: St. Paul Editions, 1976)
"Como te confessaste, assim deves emendar-te. São muitos os que confessam os próprios pecados, mas não se corrigem nunca."
(SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA. Sermões. Tradução de Pe. Geraldo Monteiro, OFM Conv. São Paulo: Mensageiro de Santo Antônio, 2011, vol. 1, p. 492)
"O bom pastor reúne os cordeirinhos que ainda não conseguem andar, toma-os nos braços e leva-os junto ao peito."
(SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA. Sermões. Tradução de Pe. Geraldo Monteiro, OFM Conv. São Paulo: Mensageiro de Santo Antônio, 2011, vol. 1, p. 450)
"Vive e comporta-te hoje, como se tivesses de morrer amanhã. E quando tiveres sugado o veneno da culpa, recorre logo ao contravenenno da sincera e sentida confissão."
(SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA. Sermões. Tradução de Pe. Geraldo Monteiro, OFM Conv. São Paulo: Mensageiro de Santo Antônio, 2011, vol. 1, p. 195)
"O diabo, que, por causa da cruz, perdeu seu poder sobre o gênero humano, tem horror de aproximarse da cruz."
(SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA. Sermões. Tradução de Pe. Geraldo Monteiro, OFM Conv. São Paulo: Mensageiro de Santo Antônio, 2011, vol. 1, p. 402)
"Assim, se ofendes a Cristo com o pecado mortal e lhe fazes qualquer outra injúria, mas depois lhe ofereces a flor da contrição ou a rosa de uma confissão banhada pelas lágrimas – as lágrimas são o sangue da alma – ele não se lembrará mais da tua ofensa, perdoa a culpa e corre para te abraçar e beijar."
(SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA. Sermões. Tradução de Pe. Geraldo Monteiro, OFM Conv. São Paulo: Mensageiro de Santo Antônio, 2011, vol. 1, p. 325)
"Jejuai, pois, se quiserdes conseguir estas duas coisas: a vitória sobre o diabo e a restituição da graça perdida."
(SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA. Sermões. Tradução de Pe. Geraldo Monteiro, OFM Conv. São Paulo: Mensageiro de Santo Antônio, 2011, vol. 1, p. 248)
"Na hora da morte, as folhas das riquezas cairão, a água dos prazeres secará, e então o infeliz pecador ficará nu e seco."
(SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA. Sermões. Tradução de Pe. Geraldo Monteiro, OFM Conv. São Paulo: Mensageiro de Santo Antônio, 2011, vol. 1, p. 812)
"Deixemos que as palavras cessem e que as nossas obras falem... o nosso discurso está vivo quando as nossas obras falam."
(SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA. Sermões. Tradução de Pe. Geraldo Monteiro, OFM Conv. São Paulo: Mensageiro de Santo Antônio, 2011, vol. 1, p. 556)
Biografia de Santo Antônio de Pádua
Nascimento e Alvorada da Santidade em Lisboa
Santo Antônio nasceu em Lisboa, Portugal, provavelmente em 15 de agosto de 1195, na festa da Assunção de Nossa Senhora. Filho primogênito de uma família da nobreza, seus pais, identificados posteriormente como Martim de Bulhom e Maria, eram tidos como justos diante de Deus e dedicados aos Seus mandamentos. No batismo, recebeu o nome de Fernando.
Desde a infância, o jovem Fernando demonstrou uma alma predestinada, preferindo a oração e o auxílio aos pobres às vaidades da corte. Uma de suas primeiras manifestações sobrenaturais ocorreu ainda menino na Catedral de Lisboa: ao ser tentado pelo demônio, o pequeno Fernando traçou o Sinal da Cruz nos degraus do altar, o que afugentou instantaneamente o maligno e deixou a marca da cruz impressa na pedra. Seus pais confiaram sua instrução à escola da Catedral de Santa Maria, onde ele cresceu sob a proteção da Virgem e no amor às Sagradas Escrituras.
A Vida sob a Regra de Santo Agostinho
Aos quinze anos, impulsionado pelo desejo de servir a Deus em reclusão, Fernando ingressou na Ordem dos Cônegos Regulares de Santo Agostinho no Mosteiro de São Vicente de Fora. Buscando maior isolamento para suas orações e estudos, transferiu-se dois anos depois para o Mosteiro de Santa Cruz em Coimbra, um renomado centro de saber teológico.
Durante cerca de dez anos como agostiniano, Fernando mergulhou profundamente no estudo da Bíblia e dos Santos Padres, especialmente Santo Agostinho. Sua memória era tão prodigiosa que, em sua alma, ele carregava um “tesouro” de conhecimento divino, preparando-se para sua futura missão como Doutor da Igreja. Acredita-se que tenha sido ordenado sacerdote por volta de 1218, enquanto ainda residia em Coimbra.
A Chama do Martírio e a Vocação Franciscana
Em 1220, a vida de Fernando foi transformada pelo exemplo de cinco frades franciscanos martirizados em Marrocos, cujas relíquias foram trazidas para Coimbra. Inflamado pelo desejo de martírio e pela humildade daqueles “mendigos de Cristo”, ele decidiu ingressar na Ordem dos Frades Menores.
Ao receber o hábito no convento de Olivares, assumiu o nome de Antônio, em honra a Santo Antão, o eremita. Ao partir, um cônego agostiniano comentou ironicamente que ele talvez se tornasse um santo, ao que Antônio respondeu humildemente: “Quando ouvires que me tornei um santo, louvarás a Deus”. Pouco depois, partiu para Marrocos com o intuito de pregar aos sarracenos e dar a vida por Cristo, mas a Providência Divina tinha outros planos: uma grave doença o manteve prostrado todo o inverno, forçando seu retorno.
Do Exílio ao Encontro com São Francisco
No mar, uma violenta tempestade desviou seu navio para a Sicília, de onde Antônio viajou para o Capítulo das Esteiras em Assis, em 1221. Lá, o jovem frade passou despercebido por todos, ocultando sua vasta cultura sob um véu de profunda humildade. Ele foi finalmente aceito pelo provincial da Romagna, que o enviou ao eremitério de Montepaolo.
Em Montepaolo, Antônio viveu em uma caverna, dedicando-se a penance e à contemplação, alimentando-se de pão e água. Sua sabedoria permanecia oculta até que, em uma ordenação em Forlì, foi solicitado a pregar. Ao abrir a boca, as palavras de Antônio, movidas pelo Espírito Santo, deixaram a todos maravilhados por sua profundidade bíblica e eloquência celestial. Ao saber disso, São Francisco escreveu-lhe pessoalmente, chamando-o de “meu bispo” e ordenando que ensinasse teologia aos frades, desde que o espírito de oração não fosse extinto pelo estudo.
O “Martelo dos Hereges” e o Doutor Evangélico
Santo Antônio tornou-se o primeiro leitor de teologia da Ordem Franciscana, ensinando em Bolonha, Montpellier e Toulouse. Sua pregação era tão poderosa que ele foi chamado de Malleus Haereticorum (Martelo dos Hereges), combatendo erros com doçura e lógica divina. Em Arles, enquanto Antônio pregava sobre a cruz, São Francisco apareceu miraculosamente no meio dos frades, abençoando a assembleia.
Sua conexão com o sobrenatural era constante. Conta-se que, ao pregar em Rimini contra hereges que se recusavam a ouvi-lo, Antônio dirigiu-se à foz do rio e pregou aos peixes, que surgiram da água em multidão para escutar a palavra de Deus. Outra manifestação notável foi o Milagre da Mula, que, mesmo após dias de jejum, preferiu ajoelhar-se diante da Sagrada Eucaristia do que comer sua ração, convertendo um incrédulo.
Visões Celestiais e o Mistério do Menino Jesus
A visão mais célebre de sua vida ocorreu em um castelo na França (ou, segundo outras fontes, em Camposampiero): enquanto Antônio rezava, o próprio Menino Jesus apareceu-lhe, repousando em seus braços e cobrindo-o de carícias celestiais. Esta visão simboliza sua união íntima com a humanidade de Cristo e sua sabedoria infusa.
Antônio também era dotado do dom da bilocação. Em certa ocasião, enquanto pregava na França, lembrou-se de que devia cantar uma lição no coro de seu convento; foi visto simultaneamente pregando no púlpito e cumprindo seu dever no coro. Além disso, possuía o espírito de profecia, prevendo o martírio de um notário pecador que o ridicularizava em Puy-en-Velay.
A Páscoa do Santo e sua Glória Eterna
Antônio passou seus últimos anos em Pádua, onde suas pregações levavam multidões de trinta mil pessoas ao arrependimento e à paz social. Sentindo o fim próximo, retirou-se para Camposampiero, onde viveu em uma pequena cela construída entre os galhos de uma nogueira gigante.
Em 13 de junho de 1231, após um ataque de fraqueza, pediu para ser levado de volta a Pádua. Ele faleceu no convento de Arcella, entoando o hino à Virgem Maria: “O Gloriosa Domina”. Suas últimas palavras, ao olhar para o céu com olhos radiantes, foram: “Eu vejo o meu Senhor”.
Santo Antônio foi canonizado pelo Papa Gregório IX apenas onze meses após sua morte, em 30 de maio de 1232. Durante a cerimônia, o Papa invocou-o espontaneamente como Doutor da Igreja, título que foi formalmente confirmado por Pio XII em 1946 como Doutor Evangélico. Em 1263, ao abrir seu túmulo, sua língua foi encontrada incorrupta, rubra e viva, testemunhando para sempre que aquela língua jamais deixara de bendizer a Deus e conduzir as almas ao Céu.
Referências Bibliográficas
- HUBER, Raphael M. (O.F.M.Conv., S.T.D.). St. Anthony of Padua: Doctor of the Church Universal. Milwaukee-Washington, copyright 1948. Esta obra fornece uma análise detalhada da vida, milagres e o processo que levou Santo Antônio a ser declarado Doutor da Igreja.
- CLASEN, Sophronius (O.F.M.). St. Anthony: Doctor of the Gospel. Tradução de Ignatius Brady, O.F.M. Chicago: Franciscan Herald Press, 1961. (Original em alemão: Antonius, Diener des Evangeliums und der Kirche). Foca na missão evangélica e nos locais onde o santo viveu.
- ANTÔNIO DE PÁDUA, Santo. Sermões. Tradução de Frei Ary E. Pintarelli, OFM. Petrópolis: Editora Vozes, 2019. (Original em italiano: I Sermoni). Reúne o pensamento teológico e as pregações originais do santo.
- O’BRIEN, Isidore (OFM). Saint Anthony of Padua: Life of the Wonder-Worker. Boston: St. Paul Editions, 1976 (3ª Edição). Obra voltada para a vida devocional e os prodígios do santo.