Santa Josefina Bakhita
1869-1947Sua santidade é fundamentada na "caridade heróica" e na humildade absoluta no serviço comunitário. A Igreja a canonizou baseada na sua total conformidade à vontade divina e no perdão aos seus torturadores, elevando-a como Padroeira dos Oprimidos e símbolo da dignidade cristã restaurada pela graça.
Frases de Santa Josefina Bakhita
Biografia de Santa Josefina Bakhita
O Alvorecer em Olgossa e a Sombra do Sequestro
Nascida por volta de 1869, no seio de uma família nobre e abastada da tribo Daju, no vilarejo de Olgossa, região de Darfur, Sudão, aquela que o mundo aclamaria como santa viveu uma infância banhada em felicidade. Seu pai, irmão do chefe da aldeia, proporcionava-lhe uma vida de relativa abundância, onde ela cresceu ignorante da dor até o dia em que sua irmã mais velha foi levada por traficantes de escravos, o primeiro cálice de amargura que sua família provaria.
Mesmo antes de conhecer a Revelação cristã, Bakhita possuía uma alma naturalmente contemplativa. Ao observar a beleza dos campos, das flores e das estrelas, ela se perguntava: “Quem é o dono de coisas tão belas?”. Esse “senso de Deus” inato preparou seu coração para o encontro com o verdadeiro “Paròn” (Patrão), que ela buscaria incansavelmente após ser arrancada de seu lar.
O Mistério da “Afortunada” e a Proteção Angélica
Por volta dos nove anos, enquanto colhia flores, Bakhita foi capturada por dois árabes armados. O trauma foi tão devastador que ela esqueceu o próprio nome de batismo tribal, sendo chamada por seus captores, em um gesto de ironia cruel, de Bakhita — que em árabe significa “Afortunada”.
Em meio à escuridão da floresta, durante uma tentativa de fuga com uma companheira chamada Binah, a jovem vivenciou uma manifestação sobrenatural: uma figura luminosa e belíssima apareceu para guiar seus passos e protegê-las das feras. Décadas mais tarde, já como religiosa na Itália, ela reconheceria aquele jovem resplandecente como seu Anjo da Guarda.
Vivida sob o domínio de diversos senhores, sua provação atingiu o ápice sob um general turco. Ela foi submetida ao rito brutal da tatuagem por incisão: 114 cortes profundos foram feitos em seu corpo, nos quais se esfregou sal para que as cicatrizes ficassem salientes. Sofreu ainda mutilações cruéis destinadas a apagar sua feminilidade. Contudo, Bakhita afirmaria mais tarde que a Virgem Maria a protegeu, mantendo-a fisicamente virgem e pura em meio à lama do cativeiro.
A Providência em Solo Italiano: O Encontro com Cristo
A mão de Deus se manifestou plenamente quando o cônsul italiano Callisto Legnani a comprou em Cartum, em 1883. Tratada com dignidade paternal, Bakhita viajou para a Itália em 1885, sendo entregue aos cuidados da família Michieli em Zianigo. Lá, tornou-se babá da pequena Alice — Mimmina —, a quem amava profundamente.
Foi por meio de Illuminato Checchini, administrador da família, que ela recebeu o primeiro presente de sua vida: um crucifixo de prata. Ao olhar para a imagem de Cristo, Bakhita sentiu uma força misteriosa. Ao entrar no Instituto dos Catecúmenos das Irmãs Canossianas em Veneza, em 1888, ela descobriu que aquele homem na cruz era o Filho de Deus. Quando a Sra. Michieli tentou forçá-la a retornar à escravidão na África, a dócil Bakhita revelou uma firmeza heróica:
“Não sairei daqui, porque não quero perder a Deus.”
A justiça italiana declarou-a legalmente livre em 29 de novembro de 1889.
A Esposa de Cristo e a “Teologia das Duas Malas”
No dia 9 de janeiro de 1890, Bakhita recebeu o batismo, a crisma e a comunhão pelas mãos do Patriarca de Veneza, assumindo o nome de Josefina Margarida Fortunata Maria. Sua alegria era indescritível: “Aqui me tornei filha de Deus”, declarava.
Sentindo o chamado à vida consagrada, ingressou no noviciado canossiano, sendo encorajada pelo futuro São Pio X. Professou seus votos em 8 de dezembro de 1896. Transferida para Schio em 1902, viveu os 45 anos seguintes servindo como cozinheira, sacristã e porteira.
Com uma humildade abismal, Bakhita desenvolveu uma sabedoria mística única. Ela descrevia sua preparação para o céu através da “Parábola das Duas Malas”: para o julgamento divino, levaria uma mala pequena com seus pecados, coberta pelos méritos de Maria, e uma mala pesada contendo os méritos infinitos de Jesus. Sua presença era um ímã espiritual — durante as guerras, os habitantes de Schio acreditavam que a cidade era protegida pelas preces daquela que chamavam de “Irmã Universal”.
O Tabor da Dor e o Trânsito para a Glória
Os últimos anos de Santa Josefina foram marcados por doenças terríveis: bronquite asmática, artrite e elefantíase. Quando uma irmã comentou que ela estava em seu calvário, Josefina corrigiu com um sorriso celeste:
“Não estou no Calvário, estou no Tabor.”
Em sua agonia, no dia 8 de fevereiro de 1947, ela reviveu os fantasmas do passado, clamando em sofrimento: “Soltem as correntes, pesam tanto!”. No entanto, seu último suspiro foi um êxtase de luz:
“Como estou feliz… Nossa Senhora!… Nossa Senhora!”
Após a morte, ocorreu um fenômeno que assombrou médicos e fiéis: seu corpo permaneceu flexível, quente e com um colorito rosado, sem qualquer sinal de rigor mortis por dias. Milhares de pessoas acudiram para tocar suas mãos, sentindo o perfume de sua santidade.
Milagres e Canonização
A glória de Bakhita foi selada por milagres incontestáveis. O primeiro, para sua beatificação, foi a cura de Irmã Angela Silla, que sofria de tuberculose óssea incurável no joelho e foi instantaneamente curada após uma novena à Santa. O segundo, para a canonização, foi a cura da brasileira Eva da Costa, cujas feridas diabéticas profundas — que expunham o osso — desapareceram milagrosamente em 1992.
São João Paulo II, ao canonizá-la em 1º de outubro de 2000, apresentou-a como um farol de esperança e perdão: uma mulher que afirmou que, se encontrasse seus algozes, beijaria suas mãos — pois através deles encontrou a Cristo.
Referências Bibliográficas
- Olmi, Véronique. Bakhita. Albin Michel, 2017.
- Zanini, Roberto Italo. Bakhita: Inchiesta su una santa per il 2000. Edizioni San Paolo, 2000.
- Roullet, Hervé. La esclava indomable: Biografía de Bakhita, la santa sudanesa. Ediciones Rialp, 2019.
- Wallace, Susan Helen. Saint Bakhita of Sudan: Forever Free. Pauline Books & Media, 2006.
- Hall, Marjorie; Ismail, Bakhita Amin. Sisters under the sun: the story of Sudanese women. Longman Publishing, 1981.
- Roche, Aloysius. Bakhita: Pearl of the Sudan. St Paul Publications, 1964.