28 de setembro de 2026
Santos Lourenço Ruiz e seus quinze companheiros foram mártires da evangelização do Japão durante uma das mais severas perseguições contra o cristianismo no Extremo Oriente. O grupo reunia sacerdotes, religiosos e leigos de diferentes povos: japoneses, espanhóis, franceses, italianos e um filipino. Entre eles estava São Lourenço Ruiz, esposo e pai de três filhos, nascido em Manila, que se tornou o primeiro mártir e o primeiro santo canonizado das Filipinas. Unidos pela fé e pelo serviço à Igreja, suportaram prisão, torturas e a morte sem abandonar Cristo.
Lourenço Ruiz nasceu em Manila, nas Filipinas, no final do século XVI, no bairro de Binondo. Era filho de pai de origem chinesa e mãe filipina e cresceu em uma comunidade profundamente ligada à presença dos missionários dominicanos. Recebeu sua formação cristã dos frades da Ordem dos Pregadores e trabalhou como auxiliar deles. Também se tornou membro da Confraria do Santo Rosário, uma das importantes expressões da vida católica de Manila naquele período.
Sua vida inicial não foi a de um missionário itinerante. Lourenço era um leigo, trabalhador, esposo e pai de família. Casou-se e teve três filhos. Essa condição torna seu testemunho particularmente significativo, pois sua caminhada até o martírio não nasceu de uma vocação religiosa ou sacerdotal. Ele vivia a fé no ambiente cotidiano de sua família e de sua comunidade.
Em determinado momento, Lourenço foi envolvido em um grave episódio de natureza criminal. A documentação conservada sobre sua causa não permite reconstruir todos os detalhes do acontecimento com absoluta segurança, mas registra que ele passou a correr perigo e decidiu deixar Manila. Foi então acolhido por um grupo de missionários dominicanos que se preparava para partir clandestinamente para o Japão.
A viagem modificou completamente o rumo de sua vida. Lourenço não partiu como sacerdote, nem como religioso, nem como alguém que tivesse planejado dedicar-se à missão japonesa. Partiu como um cristão leigo que procurava escapar de uma situação perigosa e acabou encontrando um caminho que o conduziria ao martírio.
Naquele momento, a missão cristã no Japão atravessava uma das fases mais difíceis de sua história. Depois da expansão inicial do cristianismo durante o século XVI, as autoridades japonesas haviam adotado medidas cada vez mais severas contra os cristãos. Missionários estrangeiros eram expulsos, igrejas eram destruídas e os fiéis eram obrigados a renunciar publicamente à fé.
Apesar disso, sacerdotes e catequistas continuavam entrando clandestinamente no país. Muitos cristãos permaneciam escondidos e dependiam de sacerdotes que aceitassem o enorme risco de exercer o ministério em segredo.
Entre os companheiros de Lourenço estava Domingos Ibáñez de Erquicia, sacerdote dominicano espanhol e vigário provincial da missão japonesa. Nascido em Régil, na Espanha, havia chegado às Filipinas e trabalhado durante anos na evangelização do arquipélago. Em 1623 entrou no Japão, onde passou aproximadamente uma década exercendo clandestinamente seu ministério. Seu epistolário constitui um dos testemunhos históricos mais importantes conservados sobre aquela missão.
Outro dos principais integrantes do grupo era Tiago Kyuhei Tomonaga, japonês, sacerdote dominicano. Pertencia a uma família cristã de Kyudetsu e havia recebido formação cristã em Nagasaki. Por causa da perseguição, deixou o Japão, estudou nas Filipinas e foi ordenado sacerdote. Trabalhou também em Taiwan antes de retornar secretamente ao Japão para continuar a evangelização.
Lucas Alonso del Espíritu Santo, sacerdote dominicano espanhol, havia sido professor no Colégio de Santo Tomás de Manila e missionário nas Filipinas. Entrou no Japão em 1623 e dedicou-se durante anos ao atendimento das comunidades cristãs perseguidas.
Guilherme Courtet, francês, havia ingressado na vida dominicana e posteriormente se transferido para a missão do Extremo Oriente. Foi professor em Manila antes de entrar clandestinamente no Japão. Durante seu interrogatório, explicou aos magistrados que os missionários haviam ido ao país para anunciar a fé em Deus e ensinar o caminho da salvação.
Miguel de Aozaraza, espanhol, também dominicano, havia trabalhado nas Filipinas antes de partir para a missão japonesa. Vicente Shiwozuka de la Cruz era japonês, sacerdote e membro de uma família cristã. Havia sido expulso do Japão durante as perseguições anteriores e, depois de receber formação sacerdotal nas Filipinas, retornou à sua terra natal.
Lázaro de Kyoto era leigo e conhecia profundamente a realidade dos cristãos japoneses. Tendo sofrido de lepra, havia sido enviado às Filipinas juntamente com outros doentes. Mais tarde retornou ao Japão e serviu como guia e intérprete dos missionários.
Entre os companheiros havia também homens que exerciam funções de catequistas e auxiliares. Francisco Shoyemon, japonês, acompanhava Domingos Ibáñez de Erquicia em seu apostolado. Foi preso com ele em 1633 e, durante o período de prisão, recebeu o hábito dominicano.
Mateus Kohioye, japonês, também era catequista e colaborador dos missionários. Tomás Hioji Kokuzayemon Nishi, igualmente japonês, tornou-se sacerdote dominicano e trabalhou na missão de Formosa e posteriormente no Japão.
O grupo incluía ainda duas mulheres que deram um testemunho extraordinário durante a perseguição. Madalena de Nagasaki era filha de cristãos martirizados e havia decidido consagrar sua vida a Deus. Trabalhou como catequista e colaboradora dos missionários. Marina de Omura, também japonesa, pertencia à Terceira Ordem Dominicana e auxiliava os cristãos perseguidos.
Assim, os dezesseis mártires não constituíam um grupo homogêneo. Eram sacerdotes, religiosos e leigos; homens e mulheres; japoneses e estrangeiros. Tinham diferentes histórias e estados de vida, mas estavam unidos pelo mesmo trabalho de evangelização.
A perseguição atingiu progressivamente os integrantes do grupo. Domingos Ibáñez de Erquicia foi preso em 1633 e submetido a interrogatórios. Francisco Shoyemon foi preso juntamente com ele. Ambos morreram naquele mesmo ano.
Nos anos seguintes, outros companheiros foram capturados. Alguns permaneceram meses ou anos presos, passando por interrogatórios repetidos e sofrendo torturas destinadas a fazê-los renunciar à fé.
Madalena de Nagasaki foi presa em 1634. Tinha aproximadamente vinte e poucos anos. Recusou-se a abandonar a fé cristã e suportou o suplício até a morte. Marina de Omura também foi presa e sofreu o martírio no mesmo período.
Os documentos relativos aos processos dos mártires descrevem um aspecto particularmente importante desses acontecimentos: os missionários não consideravam o sofrimento um objetivo em si mesmo. Eles afirmavam que haviam ido ao Japão para anunciar o Evangelho e servir aos cristãos. O martírio aconteceu porque as autoridades exigiam deles a renúncia à fé que haviam recebido e anunciado.
Alguns dos prisioneiros suportaram as torturas durante longos períodos. A perseguição procurava não apenas eliminar os missionários, mas também obrigá-los a apostatar publicamente, pois uma renúncia diante das autoridades poderia ser utilizada como exemplo para os demais cristãos.
Alguns chegaram a ceder momentaneamente sob o sofrimento extremo. Entretanto, arrependidos, reafirmaram posteriormente a fé e aceitaram novamente o caminho do martírio. Esses episódios aparecem nos documentos da causa e mostram a dimensão humana do drama vivido pelos cristãos japoneses.
Lourenço Ruiz foi preso juntamente com outros missionários e levado para Nagasaki. Antes disso, havia sido detido em Okinawa. Depois de transferido para Nagasaki, passou por interrogatórios diante das autoridades.
Ali foi confrontado diretamente com a exigência de abandonar o cristianismo. Lourenço respondeu professando sua fé. O testemunho preservado no processo apresenta-o como um homem plenamente consciente de que sua recusa poderia resultar na morte.
Sua resposta tornou-se célebre porque manifestava não apenas a fidelidade de um missionário, mas a de um pai de família. Ele declarou que era cristão e que estava disposto a morrer por Deus. A tradição documental da causa conserva também sua afirmação de que, se tivesse mil vidas, ofereceria todas elas por Cristo.
Lourenço não estava sozinho. Com ele estavam Antonio González, sacerdote dominicano espanhol; Guilherme Courtet, sacerdote dominicano francês; Miguel de Aozaraza, sacerdote dominicano espanhol; Vicente Shiwozuka de la Cruz, sacerdote japonês; e Lázaro de Kyoto, leigo japonês.
Os seis permaneceram presos e foram submetidos a prolongados sofrimentos. Finalmente foram condenados à morte.
O martírio aconteceu em Nagasaki em setembro de 1637. Antonio González morreu primeiro, em 24 de setembro. Lourenço Ruiz e seus outros companheiros morreram poucos dias depois, em 29 de setembro de 1637. A execução foi realizada mediante os suplícios então empregados contra os cristãos condenados.
A notícia chegou a Manila em dezembro daquele ano. A comunidade cristã recebeu a notícia do martírio com grande emoção e celebrou solenemente a memória daqueles que haviam dado a vida no Japão. A morte de Lourenço adquiriu desde cedo uma importância particular porque ele era natural de Manila, marido e pai, e não pertencera ao clero.
Os martírios do grupo aconteceram em diferentes anos: 1633, 1634 e 1637. Ao todo, foram dezesseis homens e mulheres.
Os documentos históricos conservados sobre eles incluem testemunhos dos processos realizados em Manila e Macau durante os anos imediatamente posteriores aos acontecimentos. Esses processos constituíram uma parte essencial da documentação utilizada posteriormente na causa de beatificação e canonização.
O testemunho de Domingos Ibáñez de Erquicia, as declarações dos missionários diante dos juízes e os relatos relacionados aos últimos dias dos mártires permitiram preservar uma memória particularmente importante da missão dominicana no Japão.
A causa de canonização foi retomada posteriormente e recebeu novo impulso no século XX. Depois do reconhecimento oficial do martírio, os dezesseis foram beatificados pelo Papa João Paulo II em Manila, em 18 de fevereiro de 1981.
A escolha de Manila para a beatificação possuía um significado especial. Foi naquela cidade que Lourenço Ruiz nasceu, recebeu a fé cristã, constituiu sua família e trabalhou junto aos dominicanos antes de partir para o Japão. Quando a notícia de seu martírio chegou às Filipinas em 1637, a comunidade de Manila já havia começado a venerar sua memória.
Em 18 de outubro de 1987, João Paulo II canonizou os dezesseis mártires em Roma. Lourenço Ruiz tornou-se o primeiro santo canonizado das Filipinas, enquanto seus quinze companheiros foram elevados juntamente com ele à honra dos altares.
A Igreja celebra sua memória em 28 de setembro.
São Lourenço Ruiz ocupa um lugar singular entre os mártires porque sua vida recorda que a santidade não pertence somente aos sacerdotes e religiosos. Ele era esposo, pai e trabalhador. Sua vida começou no cotidiano de uma família cristã e terminou diante dos juízes de Nagasaki.
Ao lado dele estavam sacerdotes que haviam abandonado suas terras para evangelizar, japoneses que retornaram à própria pátria apesar da perseguição, catequistas, religiosos e mulheres que haviam escolhido servir secretamente à Igreja. Alguns morreram depois de longos períodos de prisão; outros foram executados pouco depois de sua captura.
A diversidade de suas histórias tornou-se parte essencial de seu testemunho. Eram diferentes em nacionalidade, cultura e estado de vida, mas permaneceram unidos na mesma fé. Para a Igreja, seu martírio representa o testemunho daqueles que, em meio à perseguição, preferiram permanecer fiéis a Cristo a salvar a própria vida mediante a apostasia.