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Santo do Dia

14 de outubro de 2026

São Calisto I, Papa e Mártir
14 de outubro

São Calisto I, Papa e Mártir

século II – c. 222

Papa de Roma no início do século III, São Calisto passou da condição de escravo à liderança da Igreja e tornou-se conhecido por defender a reconciliação dos pecadores arrependidos num período de fortes disputas doutrinais e disciplinares.

 

Calisto nasceu no século II, provavelmente em Roma ou em alguma região ligada ao ambiente romano. Sua origem social foi muito diferente daquela que normalmente se associaria à figura de um futuro Papa: ele começou a vida como escravo.

Grande parte das informações sobre sua juventude chegou até nós por meio de Hipólito de Roma, que mais tarde se tornaria um de seus adversários mais duros. Por isso, muitos detalhes precisam ser lidos com prudência. Mesmo assim, o relato conserva elementos importantes sobre o caminho incomum percorrido por Calisto.

Ele pertencia a um cristão chamado Carpóforo, ligado à casa imperial. Em determinado momento, recebeu a responsabilidade de administrar uma espécie de caixa ou atividade financeira na qual cristãos haviam depositado dinheiro. O empreendimento fracassou e Calisto acabou envolvido numa crise grave.

Segundo o relato de Hipólito, depois das perdas financeiras ele tentou fugir de Roma, mas foi capturado. Mais tarde, procurando recuperar dinheiro de alguns devedores, envolveu-se numa confusão com membros da comunidade judaica e acabou denunciado às autoridades romanas.

Como consequência, foi condenado aos trabalhos forçados nas minas da Sardenha.

A condenação às minas era uma das penas mais severas do Império Romano. Os prisioneiros eram submetidos a trabalho brutal, condições insalubres e poucas perspectivas de sobrevivência.

A vida de Calisto poderia ter terminado ali.

Durante o reinado do imperador Cômodo, porém, vários cristãos presos na Sardenha receberam a liberdade graças à intervenção de Márcia, mulher influente na corte imperial e favorável aos cristãos. Calisto acabou sendo incluído entre os libertados.

Depois de regressar, recebeu apoio do Papa Vítor I, que lhe permitiu viver afastado de Roma durante algum tempo.

Esse período marcou uma transformação decisiva. O homem que havia conhecido a escravidão, a ruína financeira, a prisão e os trabalhos forçados passaria pouco depois a ocupar funções cada vez mais importantes dentro da Igreja de Roma.

 

Diácono e responsável pelo cemitério da Igreja

 

Durante o pontificado do Papa Zeferino, Calisto retornou a Roma e tornou-se um de seus colaboradores mais próximos.

Zeferino confiou-lhe a administração de um grande cemitério cristão situado junto à Via Ápia.

Esse lugar se tornaria conhecido como as Catacumbas de São Calisto.

Os cristãos de Roma já utilizavam diversos cemitérios subterrâneos, mas o complexo administrado por Calisto tornou-se especialmente importante para a comunidade romana. Ali seriam sepultados numerosos mártires, bispos e cristãos dos primeiros séculos.

Mais tarde, uma área das catacumbas ficou conhecida como a Cripta dos Papas, pois vários pontífices do século III foram enterrados naquele local.

A função entregue a Calisto não era simplesmente a de cuidar de sepulturas. Os cemitérios cristãos estavam profundamente ligados à vida da comunidade, à memória dos mártires e à identidade da Igreja num período em que o cristianismo ainda não possuía liberdade pública plena.

A escolha demonstra a confiança que o Papa Zeferino depositava nele.

Calisto tornou-se diácono e passou a ocupar posição destacada na administração da Igreja romana. Ao mesmo tempo, aproximou-se cada vez mais dos debates teológicos e disciplinares que agitavam os cristãos daquele período.

Quando Zeferino morreu, por volta de 217, Calisto foi escolhido para sucedê-lo como bispo de Roma.

Sua eleição, porém, não foi aceita por todos.

 

Eleito Papa em meio a uma crise

 

A Igreja romana do início do século III enfrentava intensas discussões sobre a natureza de Deus, a relação entre o Pai e o Filho e os limites da disciplina eclesiástica.

Entre os principais opositores de Calisto estava Hipólito, presbítero romano, escritor e teólogo de grande formação.

Hipólito considerava Calisto excessivamente tolerante tanto em questões doutrinais quanto disciplinares. A ruptura tornou-se tão profunda que Hipólito passou a liderar uma comunidade separada e é tradicionalmente considerado o primeiro antipapa da história.

O conflito entre os dois explica por que muitas informações negativas sobre Calisto chegaram até nós justamente através das obras de Hipólito.

Na controvérsia sobre a Trindade, Calisto procurou evitar posições extremas.

De um lado estavam aqueles que pareciam distinguir de tal maneira o Pai e o Filho que corriam o risco de apresentar duas divindades separadas. De outro estavam correntes associadas a Sabélio, que afirmavam a unidade divina de modo que acabavam enfraquecendo a distinção real entre Pai, Filho e Espírito Santo.

Calisto rejeitou essas posições e também rompeu com Sabélio.

Os termos teológicos utilizados naquele período ainda não possuíam a precisão que alcançariam nos grandes concílios do século IV. Muitas discussões que depois seriam expressas através de fórmulas mais claras eram então travadas com uma linguagem ainda em formação.

A controvérsia tornou-se particularmente amarga porque estava ligada também a disputas de autoridade dentro da Igreja romana.

Mesmo enfrentando oposição intensa, Calisto permaneceu à frente da comunidade de Roma até sua morte.

 

Misericórdia, penitência e disciplina

 

O ponto pelo qual Calisto se tornou especialmente importante na história da Igreja foi sua posição sobre a reconciliação dos cristãos que haviam cometido pecados graves.

Alguns grupos defendiam uma disciplina extremamente rigorosa. Para eles, certos pecados cometidos depois do batismo, especialmente adultério e outras faltas graves contra a moral, deveriam excluir definitivamente o pecador da comunhão da Igreja.

Calisto seguiu outro caminho.

Ele ensinava que a Igreja possuía autoridade para conceder reconciliação aos pecadores verdadeiramente arrependidos depois de uma penitência adequada.

Isso não significava considerar o pecado sem importância.

A questão era outra: um cristão que tivesse caído gravemente poderia arrepender-se, cumprir penitência e ser novamente recebido na comunhão da Igreja?

Para Calisto, a resposta era sim.

Essa postura provocou indignação entre os rigoristas. Hipólito atacou duramente o Papa por permitir que pessoas culpadas de pecados graves fossem restauradas à comunhão.

A posição de Calisto, contudo, expressava uma compreensão pastoral que se tornaria característica da tradição católica: a Igreja não existe somente para os que conseguem permanecer sem grandes quedas, mas também deve oferecer um caminho de conversão para aqueles que pecam e verdadeiramente se arrependem.

As disputas alcançaram também questões matrimoniais.

Há indícios de que Calisto tenha reconhecido determinadas uniões entre mulheres de posição social elevada e homens de condição inferior ou servil. A legislação romana colocava fortes obstáculos a esse tipo de casamento, especialmente quando estavam em jogo diferenças de classe.

A prática atribuída a Calisto sugere que, para ele, a validade moral de uma união cristã não dependia simplesmente das distinções sociais impostas pelo direito romano.

Mais uma vez, seus adversários interpretaram essa atitude como relaxamento da disciplina.

Vista dentro do conjunto de seu pontificado, porém, sua ação revela uma preocupação constante: preservar as exigências da vida cristã sem transformar a Igreja numa comunidade reservada apenas àqueles considerados irrepreensíveis.

Talvez sua própria trajetória tivesse influência sobre essa visão.

Calisto conhecia pessoalmente a queda, o castigo e a possibilidade de recomeçar. Havia sido escravo, prisioneiro e condenado às minas. Depois foi reintegrado à comunidade, recebeu responsabilidades cada vez maiores e terminou eleito bispo de Roma.

Sua própria vida era, em certo sentido, uma demonstração concreta de que o passado de uma pessoa não precisava determinar definitivamente o seu lugar dentro da Igreja.

 

Morte, culto e legado

 

Calisto morreu por volta do ano 222.

A tradição cristã antiga passou a venerá-lo como mártir, embora as circunstâncias exatas de sua morte não possam ser estabelecidas com absoluta segurança.

Seu pontificado coincidiu com a passagem do reinado de Heliogábalo para o de Alexandre Severo. Não existia naquele momento uma perseguição geral aos cristãos decretada pelo Império como ocorreria em períodos posteriores.

Por isso, é possível que sua morte tenha acontecido durante alguma violência local ou tumulto popular contra os cristãos.

Uma tradição posterior situa sua morte na região do Trastevere, em Roma, e afirma que Calisto teria sido lançado num poço. O local ficou ligado durante séculos à memória de seu martírio. Embora essa narrativa pertença à tradição antiga de seu culto, os detalhes não podem ser comprovados pelas fontes mais próximas dos acontecimentos.

Também é significativo que Calisto não tenha sido sepultado no grande cemitério que administrara e que posteriormente receberia seu nome.

Seu corpo foi enterrado no cemitério de Calepódio, na Via Aurélia, em Roma.

A memória de seu martírio aparece na antiga tradição litúrgica romana, e sua veneração espalhou-se pela Igreja.

Sua festa é celebrada em 14 de outubro.

As Catacumbas de São Calisto permaneceram como um dos mais importantes testemunhos arqueológicos do cristianismo dos primeiros séculos. O complexo conserva a memória de numerosos mártires e de vários dos sucessores de Pedro que viveram nas décadas seguintes.

Entretanto, o legado mais profundo de Calisto ultrapassa o cemitério que leva seu nome.

Seu pontificado enfrentou uma questão que continuaria aparecendo repetidamente na história da Igreja: o que fazer com aqueles que, depois de entrarem na comunidade cristã, cometem pecados graves?

Os rigoristas estavam dispostos a fechar definitivamente as portas.

Calisto insistiu que a penitência podia abrir novamente o caminho da comunhão.

Essa convicção não nasceu num período tranquilo. Ele precisou defendê-la diante de opositores capazes e influentes, sofreu uma ruptura dentro da própria comunidade romana e teve sua reputação atacada por escritores contemporâneos.

Mesmo assim, a prática de reconciliar os pecadores arrependidos prevaleceu.

A trajetória de São Calisto permanece uma das mais extraordinárias entre os primeiros Papas: começou como escravo, conheceu o fracasso, a prisão e as minas da Sardenha; retornou a Roma, tornou-se diácono e administrador de um dos principais cemitérios cristãos; foi eleito sucessor de Pedro e terminou venerado pela Igreja como Papa e mártir.

 

Referências bibliográficas

 

HIPÓLITO DE ROMA. Refutatio omnium haeresium. Livro IX. In: ROBERTS, Alexander; DONALDSON, James (eds.). Ante-Nicene Fathers. Vol. V. Buffalo: Christian Literature Publishing Company, 1886.

DUCHESNE, Louis (ed.). Le Liber Pontificalis: Texte, introduction et commentaire. Tome I. Paris: Ernest Thorin, 1886.

CONGREGAÇÃO PARA O CULTO DIVINO E A DISCIPLINA DOS SACRAMENTOS. Martyrologium Romanum. Editio typica altera. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2004.

KELLY, J. N. D.; WALSH, Michael J. The Oxford Dictionary of Popes. 2. ed. Oxford: Oxford University Press, 2010.

DUFFY, Eamon. Saints and Sinners: A History of the Popes. 4. ed. New Haven: Yale University Press, 2014.

DE ROSSI, Giovanni Battista. Roma Sotterranea Cristiana. Roma: Cromo-Litografia Pontificia, 1864–1877.

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