12 de outubro de 2026
Invocação da Santíssima Virgem Maria, Mãe de Jesus, cuja devoção nasceu após o encontro da imagem de Nossa Senhora da Conceição nas águas do rio Paraíba do Sul, em 1717. Venerada como Padroeira do Brasil, tornou-se presença marcante na espiritualidade do povo brasileiro, especialmente entre famílias, trabalhadores e peregrinos que recorrem à sua santa e poderosa intercessão.
A origem da devoção a Nossa Senhora Aparecida está no encontro de uma pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, retirada das águas do rio Paraíba do Sul. Por isso, o ano de 1717 corresponde ao início dessa devoção e ao redor dela expressa, na fé católica, o amor à Mãe de Cristo e a confiança em sua intercessão.
Em outubro de 1717, a vila de Guaratinguetá preparava-se para receber Dom Pedro de Almeida e Portugal, o Conde de Assumar, que passava pela região durante sua viagem para assumir o governo em Minas Gerais. Os pescadores Domingos Garcia, Felipe Pedroso e João Alves foram encarregados de conseguir peixes para a recepção. Segundo a narrativa conservada pelo Santuário, depois de tentativas sem resultado, lançaram as redes e recolheram o corpo de uma pequena imagem, separado da cabeça. Em outro lançamento, encontraram a cabeça correspondente. Reuniram as duas partes e continuaram a pesca. A tradição relata que, a partir daquele momento, conseguiram uma quantidade abundante de peixes, acontecimento que foi uma graça recebida por intercessão de Nossa Senhora.
O primeiro lugar de veneração não foi uma grande igreja, mas o ambiente doméstico dos pescadores. A imagem permaneceu sob os cuidados de Felipe Pedroso, e familiares e vizinhos passaram a reunir-se para rezar diante dela. O terço e as ladainhas acompanharam essa expressão inicial de fé. A devoção nasceu, portanto, da vida cotidiana de uma comunidade pequena, marcada pelo trabalho e pela proximidade entre as famílias. Em 1732, Felipe entregou a imagem a seu filho Atanásio Pedroso, que preparou um oratório para acolhê-la. A participação de outras pessoas ampliou o alcance dessas reuniões. Aquilo que começara como oração familiar tornou-se, gradualmente, um ponto de encontro religioso para moradores da região e visitantes.
Com o crescimento da devoção, o espaço do oratório deixou de ser suficiente. O padre José Alves Vilela, vigário de Guaratinguetá, apresentou à autoridade diocesana informações sobre a veneração da imagem e os benefícios atribuídos à intercessão de Nossa Senhora. Em 1743, obteve autorização para a construção de uma igreja. O templo foi erguido no Morro dos Coqueiros, em terreno doado por Margarida Nunes Rangel, e inaugurado em 1745. A celebração da primeira Missa nesse local marcou uma nova etapa: a devoção passou a contar com um espaço destinado ao culto público e ao atendimento dos peregrinos. Ao redor da igreja desenvolveu-se o povoado que, com o tempo, daria origem à cidade de Aparecida.
A história religiosa de Aparecida preserva diversos relatos de graças, transmitidos pelas famílias e incorporados à tradição do Santuário. Além da pesca abundante, recorda-se o episódio das velas que teriam voltado a acender durante uma oração e o de Zacarias, homem escravizado cujas correntes teriam se soltado quando rezava diante da imagem. Esses acontecimentos devem ser apresentados como um testemunho da presença da Mãe Aparecida entre os fiéis.
A imagem venerada em Aparecida é uma pequena escultura de terracota que representa Nossa Senhora da Conceição. Suas mãos unidas indicam uma atitude de oração. Ao longo da história, o manto e a coroa passaram a compor a apresentação pela qual ela se tornou amplamente conhecida. Sua tonalidade escura também adquiriu grande significado na experiência religiosa brasileira, favorecendo uma identificação afetiva entre a devoção e populações historicamente marginalizadas. Essa leitura espiritual e cultural não deve ser confundida com uma conclusão definitiva sobre a autoria da escultura ou sobre todos os processos materiais que determinaram sua aparência. Para a fé católica, a imagem não é uma divindade: é uma representação de Maria, que orienta os fiéis para Jesus Cristo.
Durante o século XIX, o aumento das peregrinações exigiu a reconstrução e a ampliação do templo. As obras deram origem à igreja inaugurada em 1888, hoje conhecida como Basílica Histórica ou Basílica Velha. O crescimento das romarias transformou profundamente a região: caminhos, hospedagens e atividades comerciais desenvolveram-se em torno do acolhimento dos visitantes. Em 1894, chegaram os missionários redentoristas, que assumiram o trabalho pastoral junto aos peregrinos. Sua atuação ajudou a organizar o atendimento religioso, com celebrações, confissões e pregação. A presença desses religiosos também contribuiu para que a devoção ultrapassasse os limites do Vale do Paraíba e alcançasse outras regiões, acompanhando famílias que levavam consigo imagens, lembranças e práticas de oração.
Em 1904, a imagem foi solenemente coroada, com autorização pontifícia, utilizando a coroa oferecida pela princesa Isabel. A cerimônia expressou o reconhecimento eclesial de uma devoção que já reunia grande participação popular. Em 1908, o Papa Pio X concedeu à igreja o título de Basílica Menor. Outra etapa decisiva ocorreu em 1930, quando Pio XI declarou Nossa Senhora da Conceição Aparecida Padroeira do Brasil. A proclamação solene foi celebrada no Rio de Janeiro em 1931, com a presença da imagem e de numerosos fiéis. O título de Padroeira consolidou sua importância para a Igreja no país, sem transformar a devoção em propriedade de um grupo político ou social: sua dimensão religiosa dirige-se ao conjunto do povo.
A Basílica Histórica tornou-se pequena para o número crescente de peregrinos. A construção do novo templo começou efetivamente em 1955, no Morro das Pitas, com forte participação do cardeal Carlos Carmelo de Vasconcelos Motta. O projeto arquitetônico foi elaborado por Benedito Calixto de Jesus Neto. A obra avançou durante décadas, sustentada pelo trabalho de profissionais, religiosos e colaboradores, além das contribuições dos devotos. Em 1980, durante sua primeira viagem ao Brasil, João Paulo II celebrou a Missa e consagrou a nova Basílica. A imagem foi transferida definitivamente para o novo templo em 1982. Em 1984, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil reconheceu oficialmente a Basílica como Santuário Nacional, consolidando sua missão de acolhimento e evangelização.
Em 1978, a imagem sofreu um atentado e se fragmentou, provocando profunda comoção entre os devotos. Sua recuperação ficou sob a responsabilidade da restauradora Maria Helena Chartuni, no Museu de Arte de São Paulo. O trabalho exigiu a identificação e a reunião cuidadosa dos fragmentos, respeitando as características da escultura. A restauração permitiu preservar um objeto de grande relevância religiosa, histórica e artística.
Em 2007, Bento XVI visitou Aparecida e presidiu a celebração de abertura da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. O encontro deu origem ao Documento de Aparecida, que destacou a formação de discípulos missionários de Jesus Cristo. O ambiente do Santuário aproximou os trabalhos dos bispos da presença cotidiana dos romeiros. Em 2013, Francisco retornou ao local durante sua viagem ao Brasil e ressaltou a esperança, a abertura às surpresas de Deus e a alegria cristã. Em 2017, as celebrações dos trezentos anos do encontro da imagem recordaram o percurso iniciado entre pescadores e famílias, reafirmando a dimensão comunitária e missionária dessa devoção.