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02 de outubro de 2026

Santa Joana Emília de Villeneuve
02 de outubro

Santa Joana Emília de Villeneuve

1811–1854

Santa Joana Emília de Villeneuve foi religiosa francesa e fundadora da Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Imaculada Conceição de Castres. Nascida em uma família nobre, renunciou a uma vida confortável para dedicar-se aos pobres, às crianças, aos enfermos, aos prisioneiros e às mulheres em situação de abandono. Sob o nome religioso de Irmã Maria, fundou uma obra que rapidamente se expandiu pela França e pelas missões da África. Sua espiritualidade tinha como centro o amor a Deus e o serviço concreto aos mais necessitados, resumido no lema “Deus só”. Morreu em 1854, durante uma epidemia de cólera, depois de ter dedicado dezoito anos à sua congregação e às obras de caridade.

Joana Emília de Villeneuve nasceu em Toulouse, na França, em 9 de março de 1811, terceira filha do conde Jean-Baptiste Marie Louis de Villeneuve e de Jeanne Gabrielle Rosalie d’Avessens. Foi batizada dois dias depois, na paróquia de Santo Estêvão.

Seu pai havia sido oficial da Marinha e pertencia a uma antiga família. Sua mãe era uma mulher profundamente religiosa, e foi sobretudo dela que Emília recebeu os primeiros ensinamentos da fé. A família possuía a propriedade de Hauterive, nas proximidades de Castres, e, devido à saúde frágil da mãe, acabou estabelecendo-se ali.

A infância de Emília transcorreu entre o ambiente familiar e a propriedade rural. A região de Castres começava a experimentar o crescimento industrial, trazendo consigo problemas sociais cada vez mais visíveis. A pobreza das famílias trabalhadoras, a falta de instrução e as dificuldades materiais das pessoas que viviam nas proximidades foram realidades que, desde cedo, despertaram sua sensibilidade.

A educação recebida de sua mãe unia piedade, senso de dever e atenção aos outros. Emília desenvolveu um temperamento reservado, reflexivo e pouco inclinado à vida mundana. A religiosidade não se limitava para ela a práticas exteriores. Gradualmente, desenvolveu uma vida interior profunda e uma preocupação crescente com aqueles que sofriam.

Em 1825, quando tinha apenas catorze anos, perdeu a mãe. A morte marcou profundamente sua personalidade. No ano seguinte, recebeu a Primeira Comunhão na paróquia de Hauterive.

Depois da morte da mãe, o pai precisou reorganizar a vida familiar e confiou parte da educação dos filhos à avó paterna, que vivia em Toulouse. Poucos anos depois, Emília sofreu outra perda importante: sua irmã Octávia morreu inesperadamente em 1828.

Essas experiências de morte e separação contribuíram para amadurecer sua vida espiritual. A jovem começou a compreender de maneira cada vez mais profunda a brevidade da existência e a necessidade de entregar a Deus a própria vida.

Sua inclinação para a vida religiosa tornou-se progressivamente mais clara. Emília sentia particular atração pelas Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo, cuja vida unia consagração religiosa e serviço aos pobres, aos enfermos e aos necessitados. Também admirava o trabalho missionário realizado em terras distantes.

Entretanto, seu pai não desejava que ela deixasse a família. Durante vários anos, Emília permaneceu junto dele, enquanto procurava discernir a vontade de Deus.

Quando sua irmã mais velha, Léontine, se casou em 1829, Emília passou a ocupar uma posição ainda mais importante dentro da família. Seu pai exercia responsabilidades públicas em Castres, e ela assumiu progressivamente os cuidados da casa e do irmão mais novo.

Foi nesse período que sua vida espiritual se aprofundou. Sob a orientação de seus diretores espirituais, especialmente o padre Jean-Baptiste de Barre, ela começou a discernir que Deus poderia estar conduzindo sua vocação por um caminho diferente daquele que havia imaginado.

Emília desejava entregar-se inteiramente a Deus, mas ainda não sabia como isso aconteceria. Em determinado momento, chegou a considerar seriamente a entrada em uma congregação já existente. A ideia de tornar-se fundadora de uma nova obra, pelo contrário, não a atraía. Ela desejava simplesmente ser religiosa e trabalhar pela salvação das almas.

A Providência, porém, conduziu sua vida por outro caminho.

 

A fundação das Irmãs Azuis

 

Depois de anos de discernimento e de resistência familiar, Emília finalmente recebeu do pai autorização para iniciar uma vida religiosa.

Em 8 de dezembro de 1836, festa da Imaculada Conceição, aos vinte e cinco anos, Emília deixou a vida familiar e, juntamente com duas companheiras, recebeu o hábito religioso. Naquele dia assumiu o nome de Irmã Maria.

Nascia a Congregação das Irmãs de Nossa Senhora da Imaculada Conceição de Castres.

A escolha da data não foi casual. A devoção à Imaculada Conceição ocuparia lugar central na identidade da nova comunidade. Emília desejava que suas religiosas fossem inteiramente dedicadas a Deus e, ao mesmo tempo, disponíveis para servir aqueles que mais necessitavam.

A nova comunidade não nasceu em condições de conforto. Emília havia trocado a segurança de uma família abastada por uma existência marcada pela pobreza e pelo trabalho. As primeiras religiosas começaram a atender meninas pobres e jovens trabalhadoras.

Em 19 de março de 1837, foi aberto o primeiro laboratório. Ali as jovens podiam aprender um ofício e receber formação cristã. A obra tinha uma finalidade que ultrapassava a simples assistência material: Emília queria oferecer às jovens condições para viverem com dignidade e, ao mesmo tempo, formar sua consciência cristã.

A congregação cresceu rapidamente.

As religiosas ensinavam crianças, visitavam enfermos, cuidavam dos pobres e prestavam assistência aos prisioneiros. A obra de Emília procurava responder às necessidades concretas das pessoas, sem separar a caridade corporal da evangelização.

Em 1840, o pároco de Saïx pediu a presença das religiosas em sua paróquia. As irmãs passaram a ensinar, visitar os enfermos e cuidar dos necessitados. Foi a primeira fundação da congregação fora de Castres.

Enquanto a comunidade se expandia, Emília começou a organizar a construção da Casa-Mãe. Ao mesmo tempo, duas obras passaram a ocupar lugar especial em seu coração: as missões e o Refúgio.

O Refúgio foi inaugurado em Castres em 22 de julho de 1846. A instituição acolhia mulheres e jovens que haviam caído em situações de prostituição e marginalização. Emília desejava oferecer-lhes não apenas abrigo, mas a possibilidade de recuperar a dignidade, abandonar a situação em que se encontravam e reconstruir a própria vida.

Sua atitude diante dessas mulheres era marcada por uma caridade que evitava o desprezo. Em suas orientações às religiosas, insistia para que não demonstrassem impaciência, repugnância ou desprezo diante das mulheres acolhidas. Elas deveriam ser tratadas com respeito, ternura e caridade.

Essa obra revelava uma característica essencial de sua espiritualidade: para Emília, a pessoa necessitada não deveria ser vista simplesmente como alguém que precisava de assistência, mas como alguém que possuía uma dignidade recebida de Deus.

 

“Deus só” e a expansão missionária

 

A espiritualidade de Emília pode ser resumida por uma expressão que se tornou o lema da congregação: “Deus só”.

Ela queria que suas religiosas buscassem a Deus acima de todas as coisas e que o serviço aos pobres fosse consequência desse amor. Para ela, contemplação e ação não eram realidades separadas.

A leitura cotidiana da Sagrada Escritura ocupava lugar importante na vida comunitária. Emília encontrava no Evangelho a inspiração para reconhecer Cristo nos pobres, nos enfermos, nos presos e nos abandonados.

Sua devoção concentrava-se especialmente na Eucaristia, no Sagrado Coração de Jesus e na Imaculada Conceição. A própria identidade da congregação estava ligada à Virgem Maria: a fundação ocorreu em 8 de dezembro, Emília recebeu o nome religioso de Irmã Maria e a congregação foi colocada sob o título de Nossa Senhora da Imaculada Conceição.

Ela também insistia na fidelidade nas pequenas coisas. Pontualidade, ordem, silêncio, limpeza, moderação, obediência e atenção às demais religiosas faziam parte de sua concepção de santidade. Para Emília, o amor a Deus precisava manifestar-se também na maneira como uma religiosa cumpria as pequenas tarefas de cada dia.

Sua preocupação com os pobres não se limitava à França. Desde os primeiros anos da congregação, começou a considerar a possibilidade de enviar religiosas para terras de missão.

A oportunidade amadureceu através dos contatos com os missionários ligados à Sociedade do Sagrado Coração de Maria e, posteriormente, com a obra missionária do padre François Libermann.

Em 1847, o projeto tornou-se realidade.

Em dezembro daquele ano, quatro religiosas partiram para o Senegal acompanhando o padre Bessieux e outros missionários. Emília sabia que as condições seriam extremamente difíceis. As religiosas enfrentariam doenças, pobreza, dificuldades de comunicação e condições materiais muito diferentes das que conheciam na França.

No ano seguinte, outra comunidade foi enviada para Libreville, no Gabão.

A expansão missionária continuou apesar das enormes dificuldades. Muitas religiosas adoeceram e algumas morreram. A própria Emília acompanhava atentamente as notícias das missões e encorajava suas filhas a perseverarem.

Para ela, a missão possuía uma finalidade essencialmente sobrenatural: levar Cristo a pessoas que ainda não haviam recebido o Evangelho e servir concretamente aqueles que se encontravam abandonados.

Ao morrer, a congregação já possuía quinze casas, quatro delas na África.

Em 30 de dezembro de 1852, a congregação recebeu a aprovação definitiva da Santa Sé.

Emília, porém, não considerava a autoridade como um privilégio pessoal. Durante o Capítulo Geral de 1853, pediu para deixar o cargo de Superiora Geral. Seu desejo era viver também a obediência e ocupar um lugar mais simples dentro da comunidade.

Seu pedido foi aceito. Ela permaneceu como Assistente Geral e Mestra das noviças.

A decisão revelou um aspecto profundo de sua espiritualidade: depois de fundar uma congregação e conduzi-la durante anos, estava disposta a renunciar à posição de autoridade para obedecer à comunidade.

 

A epidemia e os últimos dias

 

Em 1854, uma epidemia de cólera atingiu a França e chegou a Castres no final de agosto.

Emília não se afastou dos doentes. Ao contrário, organizou as religiosas para que fossem às casas da cidade e dos arredores prestar assistência aos enfermos.

Sua reação diante da epidemia correspondeu àquilo que havia ensinado durante toda a vida: a caridade não deveria recuar diante do sofrimento.

Enquanto a doença avançava, ela procurou também fortalecer espiritualmente a comunidade. Fez uma peregrinação a Pibrac para pedir a proteção de Santa Germana Cousin sobre a cidade e a congregação. Na Casa-Mãe, mandou expor relíquias de Santa Flaviana e continuou incentivando as religiosas a servir os doentes.

No dia 27 de setembro, Emília apresentou os primeiros sintomas da doença.

Mesmo debilitada, continuou preocupada com a comunidade. Durante seus últimos dias, perguntou pelo estado sanitário da cidade, pelas religiosas que trabalhavam junto aos enfermos e pelas noviças.

A doença evoluiu rapidamente.

Santa Joana Emília de Villeneuve morreu em Castres em 2 de outubro de 1854, aos quarenta e três anos de idade.

Sua morte ocorreu exatamente no contexto da epidemia que ela havia enfrentado servindo aos doentes. A fundadora que durante toda a vida procurara os mais pobres e vulneráveis terminou sua existência entre aqueles a quem havia dedicado sua obra.

Sua fama de santidade cresceu depois de sua morte. As religiosas que haviam vivido próximas a ela conservaram suas lembranças, seus ensinamentos, suas cartas e testemunhos sobre sua vida espiritual.

Em 1948 foi iniciado oficialmente o processo diocesano para investigar sua vida e suas virtudes. A causa, por ter sido aberta muitas décadas depois de sua morte, foi tratada como uma causa histórica, exigindo a investigação de numerosos documentos e testemunhos.

Em 6 de julho de 1991, o Papa João Paulo II reconheceu oficialmente a heroicidade das virtudes de Emília.

O primeiro milagre atribuído à sua intercessão ocorreu em 1995. Uma jovem africana, Binta Diaby, encontrava-se hospitalizada em Barcelona com uma grave peritonite. Após a oração pela intercessão de Emília, ocorreu uma recuperação considerada inexplicável pelos médicos que examinaram o caso. O milagre foi reconhecido oficialmente em 17 de dezembro de 2007.

Joana Emília de Villeneuve foi beatificada pelo Papa Bento XVI em 5 de julho de 2009.

Outro acontecimento extraordinário seria posteriormente reconhecido no Brasil. Emilly Maria de Souza, uma criança de Petrolina, Pernambuco, sofreu uma grave descarga elétrica quando ainda era bebê. O quadro foi acompanhado de parada cardiorrespiratória prolongada e havia risco de graves sequelas neurológicas.

A família e outras pessoas começaram a invocar a intercessão da Beata Emília. A investigação diocesana foi realizada em Petrolina entre 2011 e 2012. Em 2014, a consulta médica da Congregação para as Causas dos Santos considerou cientificamente inexplicável a ausência das consequências neurológicas esperadas após o acidente. Os consultores teológicos reconheceram posteriormente a cura como milagre atribuído à intercessão da Beata.

Em 6 de dezembro de 2014, o Papa Francisco autorizou a promulgação do decreto sobre o milagre.

Finalmente, em 17 de maio de 2015, na Praça de São Pedro, o Papa Francisco canonizou Joana Emília de Villeneuve juntamente com outras três religiosas: Maria Cristina Brando, Maria Alfonsa Danil Ghattas e Maria de Jesus Crucificado Baouardy.

Santa Emília deixou como herança uma espiritualidade inteiramente voltada para Deus e concretizada no serviço aos mais necessitados. Sua vida começou em uma família aristocrática e confortável, mas ela escolheu abandonar progressivamente os privilégios de sua condição para colocar-se a serviço daqueles que a sociedade frequentemente deixava à margem.

Pobres, crianças, enfermos, prisioneiros, mulheres abandonadas e povos das missões africanas foram os destinatários de sua caridade.

Seu lema, “Deus só”, resume o centro de sua vida. Não se tratava de afastar-se das necessidades humanas para buscar somente a Deus, mas de encontrar em Deus a razão para servir o próximo. Para Emília, quanto mais profundamente uma pessoa se entrega a Deus, mais profundamente deve tornar-se disponível aos que sofrem.

Sua vida terminou em meio a uma epidemia, enquanto suas religiosas cuidavam dos doentes. Aquilo que havia ensinado durante toda a existência tornou-se também o testemunho final de sua própria vida: amar a Deus e servi-lo naqueles que mais necessitam.

 

Referências bibliográficas

 

  1. AYMA, Louis. Vie de Sœur Marie de Villeneuve, fondatrice de l’Institut de l’Immaculée Conception de Castres. Castres, 1881.
  2. RIBET, Jérôme. Vie de la Mère Marie de Villeneuve, fondatrice de la Congrégation de Notre-Dame de l’Immaculée Conception de Castres. Castres, 1899.
  3. VILLENEUVE, Jeanne-Émilie de. Directoire spirituel. Castres: Éditions de la Congrégation des Sœurs de Notre-Dame de l’Immaculée Conception, 1984.
  4. CONGRÉGATION DES CAUSES DES SAINTS. Positio super Virtutibus: Servae Dei Ioannae Aemiliae de Villeneuve, Fundatricis Congregationis Sororum ab Immaculata Conceptione de Castres. Roma: Typis Polyglottis Vaticanis, 1984.
  5. CONGRÉGATION DES CAUSES DES SAINTS. Decretum super Virtutibus. Roma: Congregatio de Causis Sanctorum, 1991.
  6. CONGRÉGATION DES CAUSES DES SAINTS. Positio super Miraculo: Beatificationis Servae Dei Ioannae Aemiliae de Villeneuve. Roma: Congregatio de Causis Sanctorum, 2007.
  7. BENTO XVI. Litterae Apostolicae de Beatificatione Ioannae Aemiliae de Villeneuve. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 2009.
  8. CONGRÉGATION DES CAUSES DOS SANTOS. Positio super Miraculo: Beatae Ioannae Aemiliae de Villeneuve. Roma: Congregatio de Causis Sanctorum, 2014.
  9. FRANCISCO. Homilia na Santa Missa e Canonização das Beatas Joana Emília de Villeneuve, Maria Cristina da Imaculada Conceição Brando, Maria Alfonsina Danil Ghattas e Maria de Jesus Crucificado Baouardy. Roma: Libreria Editrice Vaticana, 17 de maio de 2015.
  10. MARTYROLOGIUM ROMANUM. Editio typica. Città del Vaticano: Libreria Editrice Vaticana, 2004.
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